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Claro como a água

Claro como a água

11
Dez17

Visita à livraria

Se há momento em que me sinto radiante é ao entrar na livraria com (auto-)permissão para comprar livros. Os meus olhos percorrem as pilhas de livros, capas coloridas, resmas de folhas, pessoas com livros debaixo do braço, outros leitores ainda indecisos ou a explorar a oferta. 

 

Hoje durante a hora de almoço fui, como em tantas outras vezes, até à  Bertrand, desta feito com o objetivo de aproveitar o (pequeno) desconto de 20% que estão a oferecer hoje. Comprei dois livros que muito raramente têm desconto e que, sejamos sinceros, já me estavam a causar comichão tal era a enorme urgência que tenho em lê-los.

 

Adiante!

Mal entrei peguei nos livros e fui para a enooooorme fila junto à  caixa (alegra-me saber que há por aí muita gente a impingir livros no Natal). É por essa altura que começo a antecipar um par de minutos de euforia máxima.

Sempre que vou à Bertrand sinto que tenho um tratamento "especial", diferente da maioria dos clientes, mas é nesta Bertrand específica que essa diferença é mais evidente. Quando respondo que não à  pergunta do colaborador da loja "É para oferta?" cria-se um à vontade atípico que origina uma conversa de café do tipo:

 

Colaborador da Bertrand, com um mega sorriso enquanto segura um dos livros que vou levar:

- Este é muito bom. Muito bom mesmo!!

 

 

Eu, com os olhos a brilhar (tal é a empatia envolvida) e como se fosse uma leitora-compradora impulsiva que não faz ideia do que está a comprar, digo quase a gaguejar:

- A sério?? Já ouvi dizer que sim, quero muito lê-lo!

 

Colaborador da Bertrand com a emoção à flor da pele:

- Sim sim. Li-o há pouco tempo, é fan-tás-ti-co!

 

Eu, que continuo embasbacada e agora também com vontade de me isolar do mundo para poder ler o livro naquele momento:

- Estou com grandes expetativas!

 

Colaborador da Bertrand com ar de quem domina a cena:

- Não a vai desiludir, é incrível!

 

E a conversa continua enquanto dura o atendimento, falamos sobre outros livros do autor e se der ainda recomendamos livros um ao outro. Termina sempre da mesma forma, com o colaborador da livraria a dizer: "Depois diga-me se gostou" e eu a assentir.

 

Participo em diálogos semelhantes a este que hoje relatei, vezes sem conta e com diferentes interlocutores. Aquele "não" que devolvo quando me fazem a pergunta banal que fazem em tantas outras lojas, aproxima-nos, faz-nos crer que podíamos ser colegas trabalho ou parceiros de leitura.

 

O livro de hoje era A Vegetariana de Kang Han e a colaboradora da loja uma senhora bem simpática de cabelo cuja cor não sou capaz de definir. Fiquei com vontade de não regressar ao escritório, de fugir para ler o livro fantástico que tinha acabado de comprar. Como devem imaginar, acabei sentada à secretária, pronta para mais uma tarde de trabalho, só que, desta feita, muito mais feliz por saber que tenho encontro marcado com o meu livro novo assim que o dia de trabalho terminar.

 

 

[ Nota aos senhores da Bertrand: bem sei que não temos nenhum acordo que me leve a publicitar o vosso negócio, ainda assim ficaria feliz caso quisessem ter a amabilidade de me oferecer um livrinho, ou dois ou de, pelo menos, procurar reconhecer a competência dos vossos colaboradores. ]

 

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