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Claro como a água

Claro como a água

06
Abr18

OPINIÃO | Uma vida à sua frente

Uma vida à sua frente.jpg

 

Título: Uma vida à sua frente

Autor: Romain Gary

Ano da primeira publicação: 1975

Editora: Sextante Editora

 

Passou uma semana e continuo sem conseguir encontrar palavras para descrever esta overdose de amor! Se a minha vontade mandasse deixava-vos com esta expressão e um par de citações marcantes o que, provavelmente, seria o suficiente para vos aguçar o apetite. Acontece que estas opiniões são, não só para vocês, mas também para mim, ajuda relê-las quando quero recordar o que mais me marcou num livro, se foram as personagens, a escrita, ou mesmo para verificar se recomendaria o livro a todo e qualquer "tipo" de leitor.

 

Uma vida à sua frente é dos livros mais ternurentos que já li, por várias vezes deixou-me com o coração nas mãos e os olhos brilhantes. Talvez seja o pequeno Momo de dez anos ou catorze?, narrador desta história, motivo dos constantes erros ortográficos com os quais o leitor se depara, muçulmano, órfão de mãe prostituta e pai incerto. Talvez sejam as inúmeras personagens igualmente inesquecíveis. Talvez seja o sofrimento e crueldade presentes ao longo da obra. Ou quiçá a escrita por vezes poética do autor, a temática da solidão, velhice e o abandono em geral.

 

Se a Madame Rosa fosse um cachorro, já a teriam mandado embora há muito tempo, mas as pessoas são melhores com os cães do que com as pessoas que não podem morrer sem sofrer.

 

São três os motivos que me levam a adjetivar esta leitura de arrebatadora e inesquecível:

1 - Uma vida à sua frente é uma história de amor, das mais genuínas que possam haver e das mais bonitas que já li.

2 - Romain Gary é um escritor não só inteligente mas verdadeiramente genial que merece ser lido por todos.

3 - Por mais voltas que dê não conseguirei transmitir-vos as sensações que esta obra me proporcionou, nem tão pouco a forma como me absorveu. Haverá melhor indicador sobre a grandiosidade de uma obra?

 

Uma vida à sua frente é, a par de Para Onde Vão os Guarda-Chuvas de Afonso Cruz, um livro que guardarei carinhosamente no coração e que recomendo a qualquer leitor.

 

- Entendes, Momo?

- Não, mas não há problema. Estou habituado a isso.

- É onde me refugio quando tenho medo.

- Medo de quê, Madame Rosa?

- Não precisamos de motivos para ter medo, Momo.

E eu nunca me esqueci daquelas palavras, foram o que de mais verdadeiro alguma vez ouvi.

 

Classificação no Goodreads: 5/5

 

01
Abr18

OPINIÃO | O Nosso Reino

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 Título: O Nosso Reino

Autor: Valter Hugo Mãe 

Ano de publicação: 2004 

Editora: Porto Editora 

 

O Nosso Reino foi o romance de estreia de Valter Hugo Mãe, o meu sexto livro do autor e, até me dói o coração por ter de escrever isto, o que menos me agradou.

 

O estilo deste romance é semelhante ao de grande parte dos outros romances de Valter Hugo Mãe, quase uma prosa poética com passagens profundas, uma escrita que se tenta aproximar do português falado e uma característica singular no que toca à pontuação. Se este tivesse sido o meu livro de estreia do autor, admito que o estilo atípico ter-me-ia (provavelmente) conquistado e a dispersão da história e falta de um fio condutor não teriam afetado a minha perceção. Talvez nesse caso o balanço tivesse sido positivo. Acontece que quando comecei a ler este livro já tinha uma opinião, inevitável de quem leu quatro livros fantásticos e um bastante bom, e uma expectativa bastante exigente.

 

As temáticas deste O Nosso Reino são a morte (comum a todas as obras do autor) e a religião. A história em si tem potencial. A personagem principal é um menino de oito anos que procura a "perfeição espiritual", é através da sua perspetiva que o leitor obtém um retrato de uma comunidade portuguesa fanática pela religião, característica observada durante o Estado Novo, época em que decorre a ação. Uma outra personagem, talvez a que mais me agradou, é o coveiro, denominado pelo autor como "O Homem mais triste do Mundo".

 

esta noite sonhei com o futuro e pude imaginar todas as coisas manuel. no futuro, daqui a muitos anos, o corpo dos homens vai mirrar porque não vai ser preciso para nada. as pessoas serão seres minúsculos a ocupar um espaço ínfimo e tudo estará preparado para que toda a actividade seja só mental. que importa pôr os pés no chão se tivermos um cérebro tão perfeito que consiga reproduzir essa sensação a cada momento. (...) todas as coisas de que precisarmos estarão já ao nível da nossa vontade, e se algo for mecânico existirão máquinas que se recuperam com o nosso pensamento a executarem o que quer que lhes ordenemos.

 

 

Valter Hugo Mãe é um dos autores, juntamente com Afonso Cruz e Fiódor Dostoiesvki, que quero ler na íntegra. Esta obra foi até ao momento a que menos me agradou, principalmente por sentir que faltava orientação na história, foram vários os momentos em que me senti perdida. Para quem não leu Valter Hugo Mãe, esta poderá não ser a obra ideal para a estreia, se me perguntassem recomendaria sem hesitação A Máquina de Fazer Espanhóis ou A Desumanização, fica a dica.

 

Classificação no Goodreads: 2/5

 

13
Jan18

OPINIÃO | A Vegetariana

A Vegetariana.jpg 

Título: A Vegetariana

Autor: Han Kang

Ano da primeira publicação: 2007

Editora: Dom Quixote

 

A Vegetariana foi uma leitura ainda de 2017. Vencedor do Man Booker International Prize em 2016 descrito como "um romance contada a três vozes, com três perspetivas diferentes, esta concisa, inquietante e linda história retrata a normal rejeição de uma mulher a todas as convenções e premissas que a ligam à sua casa família e sociedade”.

Esta descrição, feita pelo júri do prémio, parece-me um tanto exagerada, se retirarmos os adjetivos linda, associado à história, e normal, associado à rejeição da mulher à família e à sociedade, então aí sim já me parecia uma descrição mais próxima da perceção que tive.

 

Sinto que devia elaborar a minha opinião, se assim não fosse qual o sentido deste post? No entanto, tal como acontece sempre que um livro não me fascina, e talvez também por já terem passado algumas semanas desde que terminei a leitura de A Vegetariana, não estou com vontade de elaborar desta vez...

 

De uma forma sucinta, aqui ficam os pontos que gostava de referir:

+ a escrita é agradável

+ a mensagem principal sobre cada um fazer o que quiser sobre o seu corpo é muito forte

- o título não faz sentido, pelo menos a partir do momento em que se começa a associar a escolha alimentar com a anorexia

- as personagens e toda a história são demasiado estranhas

- o livro lê-se rapidamente mas passado uns dias já mal nos lembramos dele

 

Não me fascinou. 

 

Classificação no Goodreads: 3/5

04
Jan18

OPINIÃO | A Bicicleta que Tinha Bigodes

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Título: A Bicicleta que tinha Bigodes

Autor: Ondjaki

Ano da primeira publicação: 2011

Editora: Caminho 

 

A fórmula mágica que fazem qualquer leitor apaixonar-se pelas obras de Ondjaki não é segredo, a receita é a de sempre: um retrato da infância contada num português bonito.

A Bicicleta que Tinha Bigodes estava na minha lista desde o dia em que li Uma Escuridão Bonita, só este Natal me chegou à estante, disfarçado de presente de Natal, chegou pelas mãos de uma pessoa muito querida que conhece o meu fascínio pelas obras do Ondjaki.

 

A bicicleta de que fala o título é o primeiro prémio de um concurso da Rádio Nacional de Angola para a melhor história infantil escrita pelos ouvintes da rádio. Da bicicleta sabe-se que tem as cores da bandeira nacional: amarelo, vermelho e preto e, se quisermos crer, tem bigodes. Do protagonista desta história sabemos que é um miúdo angolano que mora em Luanda, tem como amigos a Isaura, que batiza todos os bichos da zona, veja-se o exemplo dos sapos Fidel e Raúl e do gato Gandhi, e o camarada JorgeTemCalma, que nunca tem calma, e ambiciona ganhar a bicicleta para não só usufruir dela, mas também para que outros o possam fazer.

 

O livro é muito pequenino, diria que demasiado curto, uma escrita tão bonita merecia mais umas páginas, mas tem uma mensagem muito forte, tal como Ondjaki já nos havia habituado.

 

- Gostas de estrelas?
-Gosto bué, tio Rui. Brilham sem gastar a pilha. Só nunca consegui entender a cor delas.
- As estrelas não têm cor, são como as pessoas.
- Eu pensei que a cor das pessoas ficava na pele delas.
- Não. A cor das pessoas fica nos olhos de quem as olha.

 

Ondjaki será sempre o meu escape predileto à monotonia da rotina e à "banalidade" da literatura dos dias de hoje. Recomendo sempre!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

31
Dez17

OPINIÃO | O Caminho Imperfeito

 

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Título: O Caminho Imperfeito

Autor: José Luís Peixoto

Ano da primeira publicação: 2017

Editora: Quetzal Editores

 

Se há algo relevante neste post e que merece ser retido é que foi com esta obra que José Luís Peixoto me conquistou. É certo que dele li apenas três livros para além deste último, talvez não tenha começado pelos melhores, este foi especial.

 

Porque escrevo? Escrevo porque quero que os meus filhos saibam quem sou. Tenho esperança de que estas palavras, misturadas com o que lhes mostro, sejam suficientes, sejam o máximo possível. Quero que me conheçam porque quero que se conheçam a si próprios. Quando eu já não possuir palavras, espero que regressem a estas e lhes encontrem significados que, agora, são inacessíveis. Espero que estas palavras os abracem. Escrever é a minha maneira de ser pai deles para sempre.

 

O Caminho Imperfeito é o regresso do autor à não-ficção, desta feita numa viagem até à Tailândia. O país é descrito através do olhar de José Luís Peixoto, que se terá deslocado por várias vezes ao país, e retratado através de ilustrações de Hugo Makarov. O livro está dividido em duas partes: a primeira sobre os sentidos e a cidade, numa evidente caracterização da cultura do país e dos costumes do seu povo, a segunda um registo autobiográfico através de vários episódios vividos pelo autor.

 

Não tem princípio nem fim, não é passível de descrição, é para ler devagar, saborear a viagem a Banguecoque, apreciar as passagens mais profundas.

 

Não sei como vou morrer, não sei se vou ter tempo para pensar. Mas muitas vezes, quando tenho de fazer avaliações importantes, imagino como seria se estivesse para morrer. E estou. Quem está vivo, está para morrer.

 

Esta leitura levou-me a procurar outras obras do autor e a querer ler mais "literatura de viagem". Dos melhores livros que li em 2017.

 

Classificação no Goodreads: 5/5 

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