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Claro como a água

Claro como a água

28
Mar18

OPINIÃO | O Labirinto dos Espíritos

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Título: O Labirinto dos Espíritos

Autor: Carlos Ruiz Zafón

Ano da primeira publicação: 2016

Editora: Editorial Planeta

 

O Labirinto dos Espíritos foi uma das últimas leituras de 2017, um dos livros que carinhosamente batizei de "monstro da minha estante". Com cerca de 800 páginas, difícil de carregar e ler nos transportes, necessitei de cerca de 2 meses para o ler.

Este é o último volume da saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, que muitos de vós imediatamente associam à incrível obra A Sombra do Vento, o primeiro volume da saga. Carlos Ruiz Zafón leva-nos de volta à mágica cidade de Barcelona (com umas visitas a Madrid) desta feita com novas personagens e um registo mais próximo do policial.

 

Antes de continuar tenho de confessar que esperava algo mais em linha com os primeiros volumes, mais centrado na família Sempere. Tendo alinhadas a minha expectativa e vontade, aconteceu o óbvio: tudo o que não dizia respeito à família Sempere era como se fosse "palha", e foram efetivamente páginas e páginas de "palha". Também contava que o registo fosse semelhante ao que já conhecia, e não um quase policial com uma longa investigação subjacente que me fez sentir, por diversas vezes, um pouco perdida.

 

Diria que é impossível não ficar maravilhado com a escrita de Zafón, se assim não fosse não teria provavelmente lido os três volumes anteriores e não me teria proposto a ler este calhamaço. Talvez por apreciar a escrita e também por este volume ajudar a esclarecer alguns mistérios levantados em livros anteriores, uma leitura que poderia ter caído em desgraça acabou por se revelar bastante agradável.

 

Recomendo O Labirinto dos Espíritos mesmo a quem não tenha lido os volumes anteriores, ainda que ache que a experiência é muito diferente. No entanto, se só pudesse escolher uma obra seria sempre A Sombra do Vento, essa sim têm meeeeesmo de ler!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

09
Set16

OPINIÃO | As Serviçais (sem spoilers)

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Título: As Serviçais

Autor: Kathryn Stockett

Ano de publicação: 2013

Editora: Saída de Emergência

 

Tão mas tão bom!

 

Sei que já muitos de vós terão lido o livro ou visto o filme (ainda que não sejam experiências comparáveis), esta era uma das minhas vergonhas literárias e por isso assim que me ofereceram o livro comecei a lê-lo. Li-o devagar, com muita calma para conseguir saborear a escrita de Kathryn Stockett mas principalmente, porque as personagens principais são deliciosas. Expectativas superadas, claramente!

 

As Serviçais é a estreia da autora norte-americana, uma estreia com temas fortes: o racismo, a igualdade, o respeito, a amizade e também a emancipação feminina. O enredo decorre nos anos 60 em Jackson, no Mississipi, numa altura em que a segregação racial começava a ser contestada, mas ainda prevalecia em alguns estados americanos. Segundo as notas presentes no final do livro, a história foi baseada em factos que a própria autora presenciou durante a infância.

 

Não vou mesmo revelar nada sobre a história, digo apenas que tem momentos emocionantes, daqueles que nos fazem ver desfocado como se estivéssemos debaixo de água, mas também tem momentos que nos indignam e causam revolta. Leva-nos a reflectir sobre o comportamento do ser humano, faz-nos querer ter o poder de mudar o Mundo.

 

A escrita é bastante descritiva e muito agradável, embora a leitura adquira um ritmo mais lento do que o habitual, a história assim o exige, a escrita é fluida. As personagens são bem construidas e apaixonantes, conhecemos três mulheres com personalidades tão diferentes mas igualmente corajosas, uma mulher branca pertencente à classe alta e duas serviçais negras. Mas o factor diferenciador nesta história, e o que mais me agradou, é que conhecemos a época pelas palavras e pela visão destas três personagens.

 

"- Um dia, um marciano sábio vem à terra para ensinar umas coisinhas às pessoas - começo.
- Um marciano? De que tamanho?
- Oh, mais ou menos um metro e noventa.
- Como é que se chama?
- Marciano Luther King.
(...)
- Era um marciano muito simpático, o senhor King. Era parecido connosco, nariz, boca, cabelo na cabeça, mas algumas pessoas olhavam para ele de maneira estranha e, bem às vezes acho que as pessoas eram mesmo más.
(...)
- Porquê Aibee? Porque eram maus para ele?
- Porque ele era verde.”

 

Não é apenas mais um livro sobre o racismo, é o livro que todos devem ler. Não procurem saber mais sobre a história, peguem no livro, deixem-se envolver, leiam, garanto-vos que será uma experiência inesquecível!

 

Classificação no Goodreads: 5/5

16
Ago16

OPINIÃO | Pássaros Feridos

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Título: Pássaros Feridos

Autor: Colleen McCullough

Ano da primeira publicação: 1977

Editora: Bertrand Editora 

 

Sinto que vivi uma vida inteira neste livro. Poderia arranjar dezenas de adjectivos sinónimos de maravilhoso, fantástico, incrível e ainda assim nunca iria parecer suficiente. Acontece com os melhores. Atentem no primeiro parágrafo da obra:

 

"Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade do que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e solta um canto mais belo que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento.”

 

Este romance acompanha três gerações da família Cleary entre 1915 e 1969 e desenrola-se principalmente na Austrália. Ainda que ficção histórica não seja dos géneros literários que mais aprecio, tenho uma certa tendência para adorar (e até delirar) com enredos focados numa mesma família. Este em particular toca em temas como a existência do ser humano, a importância das escolhas e a incerteza/certeza do destino.

 

Motivos para ler este livro é o que não falta por aqui, deixo os meus eleitos:

  1. as personagens são tão completas que sentimos que vivem para além do livro
  2. a escrita da autora é cativante, rica em imagens e sentimentos, conseguimos facilmente visualizar as paisagens que a autora descreve
  3. a autora consegue relacionar muito bem a história da família com os acontecimentos da época
  4. é um livro muito absorvente, daqueles que nos fazem esquecer onde estamos
  5. Colleen McCullough sabe realmente como contar uma história

 

Não é um romance perfeito, nem sei se tal coisa existe. Reconheço que a autora se excedeu um bocadinho, podia ter contado a mesma história em menos páginas. Também fiquei de pé atrás com o comportamento de algumas personagens femininas, demasiada submissão para o meu gosto.

 

No final, estes pontos menos positivos pareceram-me pouco relevantes, terminei o livro com uma sensação difícil de descrever e agora que já passaram alguns dias percebo o quanto estas personagens me marcaram. Não se deixem intimidar pelas mais de 600 páginas, garanto-vos que esta experiência é inesquecível.

 

Classificação no Goodreads: 5/5

06
Jul16

OPINIÃO | Crime e Castigo

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Título: Crime e Castigo

Autor: Fiódor Dostoievski

Ano da primeira publicação: 1866

Editora: Relógio d'Água

 

Infelizmente não temos tempo para ler tudo o que gostaríamos, por isso o melhor é começar pelos melhores, Crime e Castigo faz claramente parte da lista dos melhores livros de sempre! Um conselho para quem se vai "aventurar" nesta obra prima: as primeiras 100 páginas podem parecer difíceis mas a partir daí o livro torna-se viciante, não desistam.

 

Depois de ter lido O Jogador percebi que tinha obrigatoriamente de pegar em Crime e Castigo o quanto antes, ainda mais porque já tinha um exemplar na estante há um par de meses. Esta leitura revelou-se uma surpresa, não tanto pela escrita, essa já sabia que me iria deliciar, mas principalmente pela capacidade que Dostoievski tem de entrar na mente humana e de criar personagens fascinantes. A personagem principal desta história é Rodion Raskólnikov, um jovem ex-estudante, que teve de abandonar os estudos universitários por falta de recursos. Rodion vive sozinho num quarto minúsculo de uma pensão, mal tem dinheiro para comer e para sustentar a mãe a irmã. Em jeito de nota: também neste obra o autor tem muito em comum com o protagonista, após ter perdido tudo no jogo, também Dostoievski passou por momentos de desespero e de miséria.

 

Não é propriamente um spoiler porque já todos devem ter percebido pelo título que esta história gira em torno de um crime. Talvez não saibam no entanto quem cometeu o crime e nesse caso seria melhor não lerem este parágrafo. Nesta grandiosa obra o autor analisa profundamente e de forma exuberante a mente de Rodion antes, durante e após o assassinato da “velha penhorista”. O autor recorre a expressões particularmente arrepiantes e bastante eficazes como taquicardia, tremor de mãos, febre, delírio e doença.

 

Esta experiência originou um turbilhão de sentimentos em mim e uma enorme confusão na minha cabeça. O que se passou foi mais ou menos assim: 1) no início da leitura senti que alguma coisa me ligava à história sem no entanto encontrar uma razão lógica que justificasse tal reacção; 2) após ter sido cometido o crime notei que crescia em mim um fascínio por esta personagem assassina, e por esta altura já não conseguia largar o livro; 3) algumas páginas depois comecei a sentir-me desesperada devido ao ritmo da leitura, demasiado lento para o meu gosto; 4) entrei num período em que a relação entre as personagens se tornou mais sólida e também mais dramática, esta mudança agradou-me; 5) faltavam apenas algumas páginas para o final da obra, o autor resolveu explorar novos sentimentos, de que gostei bastante, mas por esta altura começava a ansiar pelo desfecho do caso. No final de toda esta desordem não me senti mais feliz nem particularmente satisfeita, sentia-me antes perturbada e percebi que precisava de reflectir sobre tudo o que se tinha passado. Numa frase, senti que tinha acabado de andar na montanha-russa!

 

Relativamente à escrita, digo-vos uma vez mais que não devem recear. Dostoievski é um dos grandes escritores mundiais mas isso não significa que a sua escrita seja um quebra- cabeças, a história é perceptível e fácil de assimilar, o vocabulário não é complexo mas é bastante rico e as descrições são abundantes e merecem ser lidas.

 

Podia encher este post de citações profundas e super filosóficas mas isso seriam quase spoilers. Partilho apenas poucas das imensas de que gostei:

 

“Aquela satisfação íntima que se observa sempre, até nas pessoas mais chegadas, diante da inesperada desgraça do próximo, e à qual nenhum homem sem excepção escapa, apesar do mais sincero sentimento de piedade e simpatia.”

 

“A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais. Mente, que vais acabar por atingir a verdade.”

 

“Quando a inteligência falha, o diabo aparece.”

 

Não esperem um livro que vos encha as medidas e que vos deixe mais felizes, dificilmente isso irá acontecer, é um livro pesado, sobre o certo e o errado e que explora o lado mais negro da mente humana. Uma leitura perturbadora e que (inexplicavelmente) me deixou com saudades de Rodion Raskólnikov.

 

Classificação no Goodreads: 5/5

29
Jan16

OPINIÃO | Para onde vão os guarda-chuvas

Para onde vão os guarda-chuvas

Título: Para onde vão os guarda-chuvas

Autor: Afonso Cruz

Ano de Publicação: 2013

Editora: Alfaguara

 

Acho que vou passar meses a reflectir sobre esta história. Sinto-me incapaz de partir para uma nova leitura.

Para onde vão os guarda-chuvas é uma história magnifífica, brilhante, as personagens são fantásticas, Fazal Elahi e Isa tocaram o meu coração como poucas personagens literárias o fizeram. Badini é genial e uma personagem tão importante nesta história.

Mas ainda que brilhante, esta é uma história dolorosa que nos leva a reflectir sobre a morte, a religião e sobre a família.

 

"Com tanto sofrimento, com licença, deveríamos chorar estrelas, para mostrar como tudo o resto é pequenino comparado com tudo o que nos dói."

 

Decididamente os livros de Afonso Cruz são para ler devagar, saborear desde a primeira a última página. Li algumas críticas sobre o livro ser demasiado longo, não achei. Em nenhum momento me aborreceu, parece-me que tem a medida e a complexidade certas. 

Encontramos neste livro passagens deliciosas como esta:

 

"Fazal Elahi sabia que o infinito não era maior do que isso. Parecia-lhe que, quando o filho lhe abria os braços, dava a dimensão exacta do infinito. E quando os fechava era um espaço ainda maior: os braços apertados contêm mais infinito do que os braços abertos, que contradição."

 

Com tanta coisa boa que já disse sobre o livro, tenho de apontar o que menos gostei. Achei que a parte final evolui demasiado depressa para o ritmo que o livro estava a levar. Agora, aquele final não me pareceu nada justo, não está certo, mas é assim mesmo, qualquer final para esta história não seria suficientemente digno.

 

Afonso, esta foi brilhante!

 

Classificação no Goodreads: 5/5

 

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