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Claro como a água

Qui | 05.05.16

OPINIÃO | O Vendedor de Passados

Rita

 

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Título: O Vendedor de Passados

Autor: José Eduardo Agualusa

Ano da primeira publicação: 2006

Editora: D. Quixote 

 

 

Este foi o meu primeiro contacto com o escritor angolano José Eduardo Agualusa. Há algum tempo que tencionava ler uma das suas obras, quando soube que Agualusa é um dos seis finalistas do Man Booker International Prize 2016 resolvi que não podia adiar mais. Soube que o Torcato ia ler O Vendedor de Passados e acabei por me juntar a ele.

 

Não tenho por hábito revelar muito sobre os livros que leio mas este livro pede mesmo que levante uma pontinha do véu. Anti-spoilers, pessoas que nunca leram o livro mas planeiam ler e outros que possam sentir-se ofendidos: por favor não leiam o próximo parágrafo.

 

Logo nas primeiras páginas ficou claro que Agualusa prima pela originalidade. Nunca antes tinha lido um livro narrado por uma osga. Uma osga, Rita? Sim, leram bem, a história é meeeesmo narrada por um réptil. Aquela osga tem nome, chama-se Eulálio e outrora foi um ser humano. É ele que nos conta a história de outra personagem invulgar, Félix Ventura, o vendedor de passados. Félix tem uma profissão invulgar, cria e vende árvores genealógicas à alta burguesia angolana, mas como se isso não bastasse para o diferenciar de todas as outras personagens literárias, acontece que Félix é também um angolano albino.

 

Agualusa constrói um enredo original, com outras personagens igualmente insólitas para além do Eulálio e do Félix, mas sobre isso nada mais vou dizer. Aparentemente a história tinha todos os ingredientes para ser um sucesso, acontece que este livro revelou-se confuso e deixou-me toda baralhada. Acho que o autor devia ter explorado mais as personagens, senti que falta algo à história.

 

A escrita do autor é muito criativa, tem um estilo próprio e é muito fresca. Achei incrível a forma como o autor glorifica o passado e a forma refrescante como aborda temas pesados. Fiquei fã da sua escrita!

 

"Um velho festeja o seu centésimo aniversário. Quis saber como é que ele se sentia. O pobre homem sorriu atónito, disse-me, não sei bem, aconteceu tudo demasiado rápido. Referia-se aos seus anos de vida e era como se estivesse a falar de um desastre, algo que sobre ele tivesse desabado minutos antes. Às vezes sinto o mesmo. Dói-me na alma um excesso de passado e de vazio."

 

Acho que o que me levou a não gostar tanto assim não foi a escrita mas sim a estrutura do livro. Este livro é constituído por pequenos capítulos quase como se fossem contos, muitas vezes a relação entre os capítulos não é nada óbvia (e talvez nem sempre exista?), o que leva o leitor a dispersar muito.

 

Não fosse a confusão que senti, teria dado as 4 estrelas. Estou apaixonada pela literatura africana e José Eduardo Agualusa é realmente dotado de uma capacidade invulgar de transformar palavras em magia: 

 

"A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos."

 

Classificação no goodreads: 3/5

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