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Claro como a água

Claro como a água

Ter | 13.09.16

RELEITURA | A Sombra do Vento

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- Pois bem,esta é uma história de livros.

- De livros?

- De livros malditos, do homem que os escreveu, de uma personagem que se escapou das páginas de um romance para o queimar, de uma traição e de uma amizade perdida. É uma história de amor, de ódio e dos sonhos que vivem na sombra do vento.

 

Passaram mais de dez anos desde que li pela primeira vez A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón. Com a divulgação do lançamento do quarto volume da série O Cemitério dos Livros Esquecidos emergiu em mim uma vontade imensa de reler os três volumes já publicados: A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu. 

 

Aproveitei as férias para pegar no primeiro volume, escusado será dizer que devorei as 500 páginas em poucos dias. A Sombra do Vento é um dos meus livros preferidos, é mágico, viciante e absorve-nos completamente.

 

Este lugar [o Cemitério dos Livros Esquecidos] é um mistério, Daniel, um santuário. Cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte. Há já muitos anos, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiões, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia ás mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós, Daniel.

 

Esta releitura trouxe-me muitas surpresas, para além de não me recordar de muitos pormenores e surpreender-me como se estivesse a ler o livro pela primeira vez, a sensibilidade e percepção que tenho hoje não são comparáveis às de há dez anos. 

 

É inevitável apaixonar-mos por esta Barcelona misteriosa e pelo universo de livros daquele "cemitério", como também me parece pouco provável que alguém fique indiferente a estas personagens. Têm dúvida? Não há melhor do que experimentar.

 

Criei-me entre livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro ainda conservo nas mãos. 

 

Seg | 12.09.16

OPINIÃO | O Original de Laura (o livro proibido de Nabokov)

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Título: O Original de Laura

Autor: Vladimir Nabokov

Ano de publicação: 2009

Editora: Teorema 

 

O Original de Laura é o romance inacabado de Vladimir Nabokov, foi escrito no final dos anos 70 quando o autor já estava muito frágil e passava os seus dias no hospital.

 

Deparei-me com este exemplar numa livraria à beira-mar, já publicitei aqui no blog que adoro a escrita de Nabokov, mas foi principalmente a capa que me atraiu. As palavras da capa foram escritas por Nabokov e anexadas ao manuscrito, nesta edição são traduzidas para português como: apagar, erradicar, suprimir, anular, delir, limpar, obliterar.

 

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Quando comecei a folhear o livro e percebi que se tratava de um romance inacabado, o último escrito por Nabokov e ainda por cima que era uma leitura "proibida", não consegui resistir à curiosidade!

 

Também estão curiosos? Ainda não? Atentem no percurso deste manuscrito:

Enquanto escrevia o romance, o autor deixou instruções à mulher, Véra, para que destruísse o manuscrito de Laura caso não conseguisse terminá-lo. Após a morte do autor em 1977, Véra decidiu que o manuscrito seria guardado num banco Suíço e por lá ficou, durante 30 anos. Em 2009, após a morte de Véra e muitas controvérsias e acusações, o filho do casal, Dimitri Nabokov, autorizou a divulgação dos textos e a publicação do romance. O Original de Laura é exactamente o que o título sugere, é a versão original de Laura, o último romance de Vladimir Nabokov.

 

Esta edição é maravilhosa. Em cada página podemos consultar as fichas originais (escritas pela mão de Nabokov) em inglês, seguidas da tradução para português. É engraçado reparar nas notas do autor, correcções e erros ortográficos (o autor escreveu em inglês e não na sua língua materna). Deixo aqui algumas imagens:

 

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O romance aborda temas como a morte, o adultério e a indiferença, e gira em torno de uma personagem feminina: Flora. Não esperem páginas cheias, parágrafos sem fim, nem texto com sentido, cada página tem cerca de 10 linhas e o texto não é compacto mas sim composto por fragmentos. Vejo estas fichas mais como poemas do que um romance, há espaço para muita divagação e até Hubert H. Hubert, personagem de Lolita, é referido nestas páginas

 

Foi Dimitri quem organizou a obra mantendo a ordem e estrutura definida por Vladimir Nabokov, e talvez por isso tenha sentido falta de alguma clareza e organização, algumas passagens são bastante confusas. Ao longo destas notas encontrei algumas evidências do "declínio" de Nabokov, ainda assim é inquestionável que Nabokov foi um grande escritor e é sempre fantástico ler qualquer texto que tenha escrito.

 

Não é uma leitura apreciada por qualquer leitor mas os fãs de Nabokov vão certamente deliciar-se com estes fragmentos.

 

Classificação no Goodreads: 3/5

Sex | 09.09.16

OPINIÃO | As Serviçais (sem spoilers)

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Título: As Serviçais

Autor: Kathryn Stockett

Ano de publicação: 2013

Editora: Saída de Emergência

 

Tão mas tão bom!

 

Sei que já muitos de vós terão lido o livro ou visto o filme (ainda que não sejam experiências comparáveis), esta era uma das minhas vergonhas literárias e por isso assim que me ofereceram o livro comecei a lê-lo. Li-o devagar, com muita calma para conseguir saborear a escrita de Kathryn Stockett mas principalmente, porque as personagens principais são deliciosas. Expectativas superadas, claramente!

 

As Serviçais é a estreia da autora norte-americana, uma estreia com temas fortes: o racismo, a igualdade, o respeito, a amizade e também a emancipação feminina. O enredo decorre nos anos 60 em Jackson, no Mississipi, numa altura em que a segregação racial começava a ser contestada, mas ainda prevalecia em alguns estados americanos. Segundo as notas presentes no final do livro, a história foi baseada em factos que a própria autora presenciou durante a infância.

 

Não vou mesmo revelar nada sobre a história, digo apenas que tem momentos emocionantes, daqueles que nos fazem ver desfocado como se estivéssemos debaixo de água, mas também tem momentos que nos indignam e causam revolta. Leva-nos a reflectir sobre o comportamento do ser humano, faz-nos querer ter o poder de mudar o Mundo.

 

A escrita é bastante descritiva e muito agradável, embora a leitura adquira um ritmo mais lento do que o habitual, a história assim o exige, a escrita é fluida. As personagens são bem construidas e apaixonantes, conhecemos três mulheres com personalidades tão diferentes mas igualmente corajosas, uma mulher branca pertencente à classe alta e duas serviçais negras. Mas o factor diferenciador nesta história, e o que mais me agradou, é que conhecemos a época pelas palavras e pela visão destas três personagens.

 

"- Um dia, um marciano sábio vem à terra para ensinar umas coisinhas às pessoas - começo.
- Um marciano? De que tamanho?
- Oh, mais ou menos um metro e noventa.
- Como é que se chama?
- Marciano Luther King.
(...)
- Era um marciano muito simpático, o senhor King. Era parecido connosco, nariz, boca, cabelo na cabeça, mas algumas pessoas olhavam para ele de maneira estranha e, bem às vezes acho que as pessoas eram mesmo más.
(...)
- Porquê Aibee? Porque eram maus para ele?
- Porque ele era verde.”

 

Não é apenas mais um livro sobre o racismo, é o livro que todos devem ler. Não procurem saber mais sobre a história, peguem no livro, deixem-se envolver, leiam, garanto-vos que será uma experiência inesquecível!

 

Classificação no Goodreads: 5/5