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Claro como a água

Claro como a água

Qui | 21.07.16

OPINIÃO | Mayombe

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Título: Mayombe

Autor: Pepetela

Ano da primeira publicação: 1983

Editora: Dom Quixote

 

Mayombe é uma das obras mais famosas do escritor africano Pepetela, não sendo no entanto uma das minhas preferidas.

 

Mayombe nasceu da participação do autor na Guerra de Independência de Angolana, na altura em que o país tentava livrar-se dos portugueses, durante os anos de 1970 e 1971. A narrativa desenrola-se na floresta Mayombe, onde um conjunto de guerrilheiros, liderado pelo camarada Sem Medo, organiza um grupo militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

 

"A amoreira gigante à sua frente. O tronco destaca-se do sincretismo da mata, mas se eu percorrer com os olhos o tronco para cima, a folhagem dele mistura-se à folhagem geral e é de novo o sincretismo. Só o tronco se destaca, se individualiza. Tal é o Mayombe, os gigantes só o são em parte, ao nível do tronco, o resto confunde-se na massa. Tal o homem. As impressões visuais são menos nítidas e a mancha verde predominante faz esbater progressivamente a claridade do tronco da amoreira gigante. As manchas verdes são cada vez mais sobrepostas, mas, num sobressalto, o tronco da amoreira ainda se afirma, debatendo-se. Tal é a vida."

 

O grupo acampa no meio da mata, sem acesso a alimentos, armas e até mesmo sem uma estratégia definida. Conhecemos o medo desta gente, assistimos à corrupção dentro do grupo, o ambiente político vivido na altura, e percebemos que uma revolução está eminente.

 

Pepetela dá ao leitor o privilégio de conhecer um universo muito particular, pouco divulgado, e numa altura em que começam a ser evidentes problemas que infelizmente persistem nos dias de hoje. A obra aborda ainda tópicos em torno da libertação nacional, a luta pelo socialismo e até mesmo questões associadas ao tribalismo e racismo.

 

Tenho de confessar que todo este foco na guerra e na revolução, em que as personagens principais são os soldados não me agradou muito. Acho que a intenção do autor foi bem conseguida, somos levados para o mato e vivemos todas as sensações como se lá estivéssemos, há pessoas que gostam muito destas temáticas, mas eu não sou uma delas.

 

Tal como tem sido hábito, os nomes das personagens são muito peculiares e hilariantes, os meus preferidos são os camaradas Sem Medo e o Mata-Tudo. Um aspecto importante na construção da obra e das personagens é a figura feminina. Creio que apenas na segunda metade do livro, quando a acção se distancia do processo revolucionário, nos é dada a conhecer a personagem feminina. A mulher, de nome Ondina, é utilizada pelo autor para criticar o papel da mulher angolana na sociedade, revelando a verdade que todos conhecemos, a mulher não tem voz nem lugar na construção da história. Curiosamente, senti que a obra ficou mais interessante quando Ondina entra em cena (e não, isto não é o meu lado feminista a apoderar-se de mim).

 

"Raciocinamos em função da nossa sociedade, sociedade assimilada à cultura judaico-cristã europeia, em que o homem tem de ser ciumento, porque é o bode do rebanho e a mulher é a sua propriedade. No fundo, que acontece à propriedade que é arrendada a outro? ás vezes até fica renovada, rejuvenescida, com um empate de capital e de trabalho. Mas nós não compreendemos isso. A mulher é uma propriedade especial. Temos uma geração de atraso. Nós, os citadinos, somos pretos por fora."

 

Não tendo ficado encantada, consegui apaixonar-me um bocadinho por estas personagens guerrilheiras e por este mundo desconhecido. Crítico da sociedade angolana por excelência, Pepetela leva-nos a conhecer Mayombe e Angola através das palavras, como só ele seria capaz.

 

Classificação no Goodreads: 3/5 (quase 4)

Qua | 20.07.16

CITAÇÃO | Ondjaki e as despedidas

Eu acho que nunca cheguei a dizer a ninguém, talvez só mesmo à Romina, mas na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber. Não gosto mesmo de despedidas.

 

em Os Da Minha Rua de Ondjaki

Seg | 18.07.16

Balbúrdia na mesa de cabeceira

Ando um bocado perdida por entre a pilha de livros que tenho na mesa de cabeceira, acho que nunca tive tantos livros em mão como agora. Vamos lá tentar pôr ordem neste caos.

 

Terminei recentemente o Mayombe do Pepetela, atribuí 3 estrelas a esta leitura, a temática não me agradou e esperava um bocadinho mais do autor, em breve publicarei uma opinião mais detalhada.

Mayombe

 

Continuo a ler O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, é um livro para ser lido aos poucos e para ser bem saboreado. Claro que estou a adorar, é impossível não gostar da escrita deste senhor.

 

Livro do Desassossego

  

 

Estou ainda a ler o Roteiro do Céu de Guilherme de Almeida, na tentativa de aprender a olhar para o céu nocturno. Em apenas algumas páginas já aprendi muitas noções básicas, já consigo identificar a Ursa Maior, Ursa Menor e a Cassiopeia (yeah) e até já aprendi que alguns dos pontinhos que pensamos serem estrelas são na realidade planetas. Se houver por aí alguém interessado nesta temática (e que também se sinta um nabo, como eu), este livro parece-me ser indicado para quem não percebe nadinha de estrelas, planetas e outros pontos brilhantes no céu. É muito básico, tem mapas celestes e o mais importante, é destinado aos leitores do hemisfério norte, em particular aos observadores portugueses. Também é importante dizer que o livro é barato.

 

 

Já comentei por aqui que ultimamente tenho lido muitos livros emprestados, sou forçada a dar prioridade a esses livros, se há coisa de que não gosto nem um bocadinho é de ter em casa livros que não são meus por mais tempo do que o necessário (e razoável). Desta feita tive de começar a ler A Viúva de Fiona Barton. É um thriller policial publicado recentemente em Portugal, dada a euforia que tenho presenciado e a recomendação da pessoa que me emprestou o livro, esperava um bocadinho mais, já li mais de dois terços do livro e não me sinto presa como geralmente acontece com livros do género, vamos ver como termina.

 A Viúva

 

Talvez não saibam mas estou rodeada de pessoas que zelam pelo meu bem-estar (ainda que sejam pessoas que não gostam lá muito de ler), uma dessas pessoas ofereceu-me um livro na sexta-feira e eu fui incapaz de o pôr de lado. É um livro divertido sobre coisas horríveis, com uma capa hilariante e sobre o qual tenho grandes expectativas, falo de Furiosamente Feliz de Jenny Lawson. Li poucas páginas mas já deu para soltar umas gargalhadas.

 

Furiosamente Feliz - Um livro divertido sobre coisas horríveis

 

Não posso começar mais nenhum livro enquanto não terminar um destes, não me oriento nem tenho pedalada para tanto. Assim sendo, o Eu sou a Árvore de Possidónio Cachapa ficará na estante à espera de vez. Depois desse tenho de me dedicar a outro policial que me emprestaram e sobre o qual nada sei (para não variar), O Devorador de Lorenza Ghinelli. E então finalmente conto pegar no livro O Assassinato de Roger Ackroyd de Agatha Christie.

 

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Depois de arrumar as ideias só me resta perguntar-vos se têm algum segredo para conseguir ler vários livros ao mesmo tempo e também se já leram algum destes livros.

 

Boas leituras e boa semana!