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Claro como a água

Claro como a água

Dom | 08.05.16

OPINIÃO | O Tímido e as Mulheres

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Título: O Tímido e as Mulheres

Autor: Pepetela

Ano de publicação: 2013

Editora: Dom Quixote

 

Após Mia Couto, Ondjaki e Agualusa aventurei-me com o mais conceituado escritor angolano da actualidade: Pepetela. É caso para dizer: mais um escritor africano, mais uma surpresa. Estou fã da literatura africana!

 

Suspeitei que ia adorar o livro quando ainda só tinha lido as primeiras páginas. A história começa assim: "Heitor é nome de herói. Os nomes são importantes. Os heróis às vezes também."

 

O título do livro é bastante sugestivo, Pepetela conta-nos a relação entre Heitor, um homem tímido, e as mulheres que se cruzam no seu caminho. Poderia ser uma história banal, apenas mais uma, mas desenganem-se, é diferente e é tão tão tão boa!

 

"Outro preconceito existente é o de ser possível  esconder o mal de amor. Tentativa inútil, ele parece estar escrito na nossa cara, nos olhos de cão abandonado, no verdor incrustado na pele, independentemente da cor original, por mais escura que seja. Nunca viram um negro verde? Então nunca viram um negro sofrendo do mal de amor."

 

O autor constrói personagens muito completas e interessantes. Heitor, a personagem principal, é um escritor em início de carreira e um homem tímido, principalmente no que toca a mulheres; Marisa é uma mulher atraente, responsável por um programa de rádio de grande sucesso; Lucrécio é casado com Marisa, dotado de uma mente brilhante mas preso a uma cadeira de rodas; há também o senhor do dia 13, que liga para o programa de Marisa ao 13º dia do mês, entre muitas outras personagens fascinantes. 

 

"Marisa ficou com aquela estranha comichão que lhe dava na planta dos pés quando desejava muito uma coisa. Às vezes nem sabia particularizar, só tinha comichão.Acabava por descobrir, desejo de um gelado, um funji de carne seca ou bagre fumado, qualquer coisa,mas desejo forte havia."

 

Este é um livro sobre desejos, assumidos ou mera suposições, entre homens e mulheres, mas este não é, a meu ver, a temática principal do romance. À semelhança de outros escritores angolanos, também Pepetela oferece ao leitor um retrato da sociedade angolana através das suas histórias. Focando-se principalmente no ambiente frenético vivido em Luanda, o autor dá-nos a conhecer uma sociedade marcada pela violência, corrupção e pelo machismo. As personagens femininas que Pepetela constrói são mulheres de garra, que fazem o que podem para não serem vistas e tratadas como um "objecto sexual" e para terem um lugar na sociedade.

 

A escrita de Pepetela é delicada, bem-humorada e aparentemente humilde, dá até a ideia de que é fácil escrever assim! Tal como Ondjaki, também Pepetela faz uso do "sotaque angolano" através de expressões como: "mata-bicho" (pequeno-almoço), "birra" (cerveja), "kuribotices" (fofocas) e "zungueira" (feirante), acho que o texto fica tão mais rico desta forma!

 

Tal como me recomendaram Pepetela, também eu o recomendo. Sinto-me uma leitora muito mais completa após ter conhecido este e outros escritores angolanos. Vale a pena!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

Sab | 07.05.16

OPINIÃO | O Senhor Valéry & O Senhor Henri

 

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Título: "O Senhor Valéry" e "O Senhor Henri"

Autor: Gonçalo M. Tavares

Ano da primeira publicação: 2002 e 2003

Editora: Editorial Caminho 

 

A série "O Bairro" é uma colecção de dez cadernos dedicados a dez moradores de um bairro inventado pelo autor Gonçalo M. Tavares. Nestes dois primeiros volumes conhecemos o Senhor Valéry e o Senhor Henri:

 

"O senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos. Ele explicava:
-Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo."

 

Lógica é o que guia o senhor Valéry. Ele diz que:

 

 

"O Mundo tem 2 lados: o direito e o esquerdo, tal como o corpo; e o erro surge quanto alguém toca o lado direito do Mundo com o lado esquerdo do corpo, ou vice-versa".

 

 

Sendo eu uma defensora dos argumentos lógicos, não poderia não ficar apaixonada por este Senhor (dei por mim a sorrir perante algumas passagens maravilhosas).

 

O Senhor Henri tem uma personalidade bastante distinta da do Senhor Valéry mas ambos gostam de jogos de linguagem. O Senhor Henri gosta de se manter informado e para tal lê enciclopédias. Passa o tempo a beber absinto e está sempre a lembrar-nos disso. Não gostei nada do Senhor Henri, achei-o muito fútil e aborrecido.

 

"O senhor Henri disse: ... é verdade que se um homem misturar absinto com a realidade fica com uma realidade melhor... mas também é certo que se um homem misturar absinto com a realidade fica com um absinto pior... muito cedo tomei as opções essenciais que há a tomar na vida — disse o senhor Henri...nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto... mais um copo, caro comendador. E sem um único pingo de realidade, por favor."

 

Adorei a forma como o Gonçalo M. Tavares caracteriza as personagens desta série. As personalidades dos "senhores" que habitam o bairro são muito distintas e complementam-se. Arrisco dizer que este é um bairro com múltiplas personalidades! Já a escrita do Gonçalo não me surpreendeu, o meu primeiro contacto com o autor foi através de O Torcicologologista, Excelênciajá nessa altura a sua escrita poética me tinha agradado e desagradado (há algo aqui que não me deixa dizer que gostei).

 

Ainda que continue a não atinar com as obras do Gonçalo, estou curiosa para conhecer os restantes moradores do Bairro! Restam 8.

 

Classificação no Goodreads: 3/5

Sab | 07.05.16

Feira do Livro de Lisboa 2016 #1

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Já começaram a montar as bancas para a 86ª edição da Feira do Livro de Lisboa! Mais alguém entusiasmado e a fazer planos?

 

Trabalhar no Marquês de Pombal tem as suas vantagens, uma delas é poder ir à FL todos os dias durante a hora do almoço, o que origina necessariamente um certo nível de euforia em mim.

Por ter esta facilidade acabo por fazer grandes planos sobre o que vou comprar e em que eventos quero participar, mas sobre isso falarei mais tarde.

 

O programa deste ano ainda não foi divulgado, no entanto vão-se sabendo umas coisinhas. Desde Fevereiro que se sabe que a edição de 2016 decorrerá entre os dias 26 de Maio e 13 de Junho, e entretanto soube-se também que o popular escritor britânico M. J. Arlidge vai estar na FL durante os dias 10, 11 e 12 de Junho.

 

Como habitual, a Bertrand está a recrutar para a FL, podem saber mais e candidatar-se aqui: http://www.grupobertrandcirculo.pt/recrutamento/

 

Entusiasmados?

Sex | 06.05.16

DESAFIO | Listas de Livros #2

Continuando na onda das listas, lembrei-me de partilhar convosco a minha lista de Livros de que toda a gente gosta, menos eu! 

 

Infelizmente acontece com frequência criar falsas elevadas expectativas sobre um livro após ler opiniões de outros leitores ou ao reparar na classificação dos livros no goodreads. Coisas do género: "é uma obra-prima", "fartei-me de chorar", "foi incrível", "não vou conseguir ler outro livro nos próximos tempos" funcionam muitas vezes como publicidade enganosa (não intencional) para outros leitores.

Ultimamente a minha lista de Livros que toda a gente gosta, menos eu! tem aumentado, só posso concluir que estou a tornar-me numa leitora exigente :D

 

1 - Frankenstein de Mary Shelley

Esta é a minha maior vergonha literária. Onde está o terror querida Mary? Foi quase doloroso ler este clássico, foi aborrecido, a escrita não é nada fácil, só não o deixei a meio porque é relativamente pequeno. Dá sono, muito sono!

 

2 - O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares de Ransom Riggs

Fantástico não é bem a minha praia, sou capaz de ler um ou dois livros do género por ano, e digo em minha defesa que quando li este até estava com disposição para as cenas paranormais e assim, mas foi chato. A história é confusa, o autor tentou escrever uma história de terror para crianças (que sentido terá isto?), as fotografias foram a única coisa de que gostei.

 

3 - Se Isto é um Homem de Primo Levi

Vergonha número dois. Não queria nada deixar esta 'obra prima' pela metade, respeito muito o senhor e tudo o que ele passou, e a verdade é que consegui chegar ao final (o truque está em saltar os parágrafos aborrecidos, que são quase todos). Não é para mim!

 

4 - A Terceira Condição de Amos Oz

Não encontrei nada de especial na escrita de Amos Oz, a história é banal e as personagens demasiado superficiais. Não vejo o escritor de que todos falam. Mais do mesmo aqui.

 

5 - Para a minha Irmã de Jodi Picoult

420 páginas, Jodi? Para mim um terço teria sido suficiente.

Ainda que a temática esteja bastante longe da ficção a história pareceu-me demasiado irrealista. Nem sequer chorei, eu que choro facilmente por causa dos livros! Se quiserem mesmo ver como não tenho coração, leiam a opinião aqui.

 

Posto isto, acho que muitos de vós deixarão de visitar o blog. No entanto, se houver por aí alguém que também não tenha gostado de pelo menos um destes livros, digam-me. Gosto de saber que no estoy sola!