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Claro como a água

Claro como a água

04
Nov16

OPINIÃO | Homens Imprudentemente Poéticos

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Título: Homens Imprudentemente Poéticos

Autor: Valter Hugo Mãe

Ano de publicação: 2016

Editora: Porto Editora

 

Homens Imprudentemente Poéticos é a mais recente obra de Valter Hugo Mãe, para mim um dos melhores escritores portugueses da actualidade. Os temas abordados neste livro são transversais às várias obras do autor: a morte, o medo e o sentido e importância que cada um de nós atribui à vida.

 

"Esperaram pelo sono para se mudarem para o dia seguinte. Havia sempre esperança na travessia nocturna. Cada deus revia a criação no quieto da noite. Acender os dias era sempre a possibilidade de uma nova criação. Era importante dormir com esperança."

 

Acho curioso que à quarta obra, ainda me deixe surpreender pela escrita poética de Valter Hugo Mãe, não sei onde é que o senhor vai buscar imaginação para reinventar a escrita, sei é que resulta sempre tão bem!

 

Se no seu último romance, A Desumanização, o autor nos leva a conhecer a Islândia, em Homens Imprudentemente Poéticos viajamos até ao Japão. É na floresta Aokigahara, conhecida como a floresta do silêncio, que todos os anos várias pessoas entram para nunca mais sair. Levam com elas uma corda que lhes abre dois caminhos: o da vida e o da morte. É na floresta do silêncio que todos os anos, vários homens e mulheres decidem pôr termo à vida.

 

Nota-se uma evolução na escrita comparativamente aos últimos romances, este é provavelmente o mais lírico e profundo, e talvez por isso esta não seja uma leitura fácil. Homens Imprudentemente Poéticos é daqueles livros que queremos muito ler, saborear a escrita e devorar páginas, só que essas duas vontades não são compatíveis. Não esperem um livro fácil, muito menos fluidez, para mim foi necessária alguma paciência extra.

 

Ainda que possa não ser justo comparar este romance aos anteriormente publicados, tenho de o fazer e confessar que continuo a preferir A Máquina de Fazer Espanhóis, não é fácil destronar essa maravilha. Para quem nunca leu Valter Hugo Mãe e não sabe por onde começar, sugiro A Máquina de Fazer Espanhóis ou O Filho de Mil Homens, estão extraordinariamente bem escritos e proporcionam leituras mais acessíveis.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

23
Mar16

CITAÇÃO | Valter Hugo Mãe

Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar. Não sabiam sequer o sabor das batatas. Só os livros explicavam tudo. As pessoas que não leem apagam-se no mapa de deus.

 

em A Desumanização, de Valter Hugo Mãe

22
Mar16

OPINIÃO | A Desumanização

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Título: A Desumanização

Autor: Valter Hugo Mãe

Ano da primeira publicação: 2013

Editora: Porto Editora

 

"Quando nasci já o meu irmão Casimiro havia falecido. Durante a infância imaginava-o à minha imagem, um menino crescendo como eu, capaz de conversar comigo partilhando os mesmos interesses. Sabia embora, que estava deitado sob a terra, e pensava que a palavra coração era da família da palavra caroço, uma semente. Achava que os meninos mortos faziam nascer pessegueiros porque os pêssegos tinham pele. O primeiro pêssego que comi foi em idade adulta."

 

Este excerto faz parte da nota do autor ao livro e revela o ponto de partida para esta obra brilhante. O autor dedica a obra ao irmão falecido que nunca chegou a conhecer, mas que o acompanhou e cresceu consigo no seu imaginário infantil.

 

A Desumanização é o terceiro livro que leio de Valter Hugo Mãe e uma vez mais o autor fala-nos da vida, da morte e do sentimento de perda, como tão bem soube fazer nos outros dois livros que li: A Máquina de Fazer Espanhóis e O Filho de Mil Homens.

 

A narradora desta história é também a protagonista, Halldora, uma menina de 12 anos, que vive nos fiordes islandeses, que perdeu a sua irmã gémea, Sigridur, e que é obrigada a tornar-se mulher para sobreviver à morte que deixou muito pouco. Halldora cresce no seio de uma família despedaçada, sem orientação, com um pai esvaziado e uma mãe que o sofrimento tornou cruel. 

 

"Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas."

 

"Lembrei-me do que a Sigridur me confessara. Que talvez a morte fosse inteligência. Consciência absoluta e inteligência. Uma coisa boa. A morte haveria de ser uma coisa boa. Feliz. Haveria de ser feliz."

 

Esta é uma história dramática mas não apenas mais uma, é uma história de Valter Hugo Mãe como só ele poderia ter escrito, pois são poucos os que conseguem criar beleza com tanta tristeza e tão pouca esperança.

 

Gostei muito e sinto que vou ficar com uma ressaca literária bem grande. Não acho que seja um livro para todas as pessoas mas Valter Hugo Mãe é mesmo isto. Recomendo!

 

Classificação no Goodreads: 5/5

 

02
Fev16

OPINIÃO | O filho de mil homens

O Filho de Mil Homens

Título: O filho de mil homens

Autor: Valter Hugo Mãe

Ano de Publicação: 2011

Editora: Alfaguara

 

Este é o segundo livro de Valter Hugo mãe que leio, fiquei de tal forma apaixonada pela sua escrita em A Máquina de Fazer Espanhóis que tinha vontade de ler tudo o que ele escreveu. 

Em O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe apresentanos personagens fascinantes: Crisóstomo, um homem de 40 anos que sempre quis ter um filho, Isaura, uma mulher que nunca conheceu o verdadeiro amor, Antonino que nasceu diferente e sofre pelo desprezo da própria mãe. A vida destas três personagens tem mais em comum do que se julga, ao longo do livro percebemos de que modo as suas vidas se ligam e como se completam uns aos outros.

 

"Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas."

 

Este livro é sobre a felicidade e o amor, ou a forma como temos de ser felizes com o que temos e muitas vezes nem valorizamos, sobre a família, não apenas a que nos é dada mas aquela que escolhemos ser a nossa. O autor toca num ponto bastante sensível, a exclusão social daqueles que nascem diferente do que alguns definem como "normal". É preciso aceitar quem é diferente e ver beleza naquilo que é estranho, ser feliz nem que seja "apenas" por estar vivo.

 

"O Crisóstomo explicava que o amor era uma atitude. Uma predisposição natural para se ser a favor de outrem. É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer se pensar, por outra pessoa."

 

Embora aborde temas pesados, este é um livro de leitura muito fácil, com humor à mistura, que mostra de uma forma muito simples como é essencial aceitarmos o que somos e sermos felizes.

 

Tal como em A Máquina de Fazer Espanhóis, a escrita é simples e poética, com frases especiais cheias de significado e que queremos guardar para sempre.

 

"Todos nascemos filhos de mil pais e de mil mães, e a solidão é a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e a nossas mil mães coincidissem em parte, como se fossemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros."

 

Este livro fez-me querer continuar a ler Valter Hugo Mãe, uma escrita simples sobre aquilo que realmente importa na vida.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

16
Jan16

OPINIÃO | A Máquina de Fazer Espanhóis

A Máquina de Fazer Espanhóis

 

Título: A Máquina de Fazer Espanhóis

Autor: Valter Hugo Mãe

Ano de Publicação: 2010

Editora: Alfaguara

 

Este foi o primeiro livro que li escrito pelo autor Valter Hugo Mãe. Nesta obra o autor conta-nos a história do senhor António Silva, um octagenário que vai para um lar após a morte da sua mulher, Laura.

Valter Hugo Mãe tem uma escrita refinada e apaixonante, conseguimos criar a imagem que o autor descreve mas o que mais me espanta é a forma como consegue tocar o coração do leitor. 

 

"assim é o amor, uma estupidez intermitente mas universal. toca a todos."

 

Ao fim das primeiras 25 páginas, tive de fazer uma pausa na leitura para recuperar o folêgo, estava sem palavras, sem coragem para encarar a mágoa do senhor Silva após a morte da esposa Laura. Ela era o amor da vida dele, tinham partilhado mais de meio século das suas vidas, senti-me como se tabém eu tivesse perdido alguém. Deixo aqui uma das frases que melhor espelha o sentimento de perda do Senhor António Silva:

 

"com a morte, tudo que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder."

 

Esta revolta acompanha o senhor Silva durante grande parte do livro e é mais evidente quando chega ao Lar da Feliz Idade. Aí são nos apresentadas outras personagens como o Américo, o Silva da Europa, o Senhor Pereira, o Senhor Esteves sem Metafísica (do poema Tabacaria de Álvaro de Campos) e muitos outros. Apartir daí é nos apresentada a dimensão social do envelhecimento e da solidão.

  

"o nosso inimigo é o corpo. ser velho é viver contra o corpo até chegarmos a um momento em que a luz do sol nos parece uma dádiva inestimável e vale a pena viver apenas para fazermos a fotossíntese das tardes”

 

Não quero estragar a magia a quem ainda não tenha lido esta obra e por isso não me alongarei mais nos detalhes.

Quero apenas dizer que é um livro cheio de metáforas onde Valter Hugo Mãe procura entender a vida e os seus pequenos detalhes, como escrever cartas de amor para uma velha que sofre por o marido não a visitar, mas acima de tudo o autor procura entender a morte e a perda.

 

A Máquina de Fazer Espanhóis é uma obra prima! Recomendo meeeessssmo!

 

Classificação no Goodreads: 5/5

 

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