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Claro como a água

Claro como a água

11
Ago16

CITAÇÃO | Pepetela

O amor é uma dialética cerrada de aproximação-repúdio, de ternura e imposição, senão cai-se na rotina, na mornez das relações e, portanto, na mediocridade. Detesto a mediocridade! Não há nada pior no homem que a falta de imaginação. É o mesmo no casal, é o mesmo na política. A vida é criação constante, morte e recriação, a rotina é exactamente o contrário da vida, é a hibernação.

 

em Mayombe de Pepetela

21
Jul16

OPINIÃO | Mayombe

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Título: Mayombe

Autor: Pepetela

Ano da primeira publicação: 1983

Editora: Dom Quixote

 

Mayombe é uma das obras mais famosas do escritor africano Pepetela, não sendo no entanto uma das minhas preferidas.

 

Mayombe nasceu da participação do autor na Guerra de Independência de Angolana, na altura em que o país tentava livrar-se dos portugueses, durante os anos de 1970 e 1971. A narrativa desenrola-se na floresta Mayombe, onde um conjunto de guerrilheiros, liderado pelo camarada Sem Medo, organiza um grupo militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

 

"A amoreira gigante à sua frente. O tronco destaca-se do sincretismo da mata, mas se eu percorrer com os olhos o tronco para cima, a folhagem dele mistura-se à folhagem geral e é de novo o sincretismo. Só o tronco se destaca, se individualiza. Tal é o Mayombe, os gigantes só o são em parte, ao nível do tronco, o resto confunde-se na massa. Tal o homem. As impressões visuais são menos nítidas e a mancha verde predominante faz esbater progressivamente a claridade do tronco da amoreira gigante. As manchas verdes são cada vez mais sobrepostas, mas, num sobressalto, o tronco da amoreira ainda se afirma, debatendo-se. Tal é a vida."

 

O grupo acampa no meio da mata, sem acesso a alimentos, armas e até mesmo sem uma estratégia definida. Conhecemos o medo desta gente, assistimos à corrupção dentro do grupo, o ambiente político vivido na altura, e percebemos que uma revolução está eminente.

 

Pepetela dá ao leitor o privilégio de conhecer um universo muito particular, pouco divulgado, e numa altura em que começam a ser evidentes problemas que infelizmente persistem nos dias de hoje. A obra aborda ainda tópicos em torno da libertação nacional, a luta pelo socialismo e até mesmo questões associadas ao tribalismo e racismo.

 

Tenho de confessar que todo este foco na guerra e na revolução, em que as personagens principais são os soldados não me agradou muito. Acho que a intenção do autor foi bem conseguida, somos levados para o mato e vivemos todas as sensações como se lá estivéssemos, há pessoas que gostam muito destas temáticas, mas eu não sou uma delas.

 

Tal como tem sido hábito, os nomes das personagens são muito peculiares e hilariantes, os meus preferidos são os camaradas Sem Medo e o Mata-Tudo. Um aspecto importante na construção da obra e das personagens é a figura feminina. Creio que apenas na segunda metade do livro, quando a acção se distancia do processo revolucionário, nos é dada a conhecer a personagem feminina. A mulher, de nome Ondina, é utilizada pelo autor para criticar o papel da mulher angolana na sociedade, revelando a verdade que todos conhecemos, a mulher não tem voz nem lugar na construção da história. Curiosamente, senti que a obra ficou mais interessante quando Ondina entra em cena (e não, isto não é o meu lado feminista a apoderar-se de mim).

 

"Raciocinamos em função da nossa sociedade, sociedade assimilada à cultura judaico-cristã europeia, em que o homem tem de ser ciumento, porque é o bode do rebanho e a mulher é a sua propriedade. No fundo, que acontece à propriedade que é arrendada a outro? ás vezes até fica renovada, rejuvenescida, com um empate de capital e de trabalho. Mas nós não compreendemos isso. A mulher é uma propriedade especial. Temos uma geração de atraso. Nós, os citadinos, somos pretos por fora."

 

Não tendo ficado encantada, consegui apaixonar-me um bocadinho por estas personagens guerrilheiras e por este mundo desconhecido. Crítico da sociedade angolana por excelência, Pepetela leva-nos a conhecer Mayombe e Angola através das palavras, como só ele seria capaz.

 

Classificação no Goodreads: 3/5 (quase 4)

16
Mai16

DIVULGAÇÃO | Se o Passado Não Tivesse Asas

 

 
O novo romance de Pepetela já está à venda, uma vez mais pelas mãos da editora Dom Quixote. Se o Passado Não Tivesse Asas está à venda por €18,90 (parece-me um preço um bocadinho exagerado, ainda mais para um livro com 384 páginas), no entanto, se o comprarem na wook levam de oferta o livro O Terrorista de Berkeley, Califórnia também do Pepetela. Podem saber mais e também comprar aqui.
 
Deixo-vos a sinopse:
 

Himba, treze anos acabados de fazer, perde-se do resto da família, vendo--se de repente sozinha no mundo. Sem outros meios que não sejam a sua inteligência, consegue chegar a Lunda, onde conhece Kassule, um menino de dez anos que perdeu uma perna devido a estilhaços de uma mina. Ambos órfãos vítimas da guerra, dependendo do lixo dos restaurantes, unem-se para conseguirem subsistir, lutando pela sobrevivência dia a dia.
Sofia, que há muito aguarda uma oportunidade para mudar de vida, aceita gerir um restaurante, onde também dá conselhos sobre temperos. À medida que o restaurante vai ganhando clientes da classe alta de Luanda, também a ambição de Sofia vai sendo alimentada. E está disposta a agarrar todas as oportunidades que lhe garantam uma vida melhor, a ela e ao irmão Diego, um artista de rua que sonha expor em galerias.
Se o Passado não Tivesse Asas cruza duas histórias, duas grandes personagens femininas, numa narrativa original com um desfecho imprevisível, que retrata os últimos vinte anos da história de Angola.

08
Mai16

OPINIÃO | O Tímido e as Mulheres

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Título: O Tímido e as Mulheres

Autor: Pepetela

Ano de publicação: 2013

Editora: Dom Quixote

 

Após Mia Couto, Ondjaki e Agualusa aventurei-me com o mais conceituado escritor angolano da actualidade: Pepetela. É caso para dizer: mais um escritor africano, mais uma surpresa. Estou fã da literatura africana!

 

Suspeitei que ia adorar o livro quando ainda só tinha lido as primeiras páginas. A história começa assim: "Heitor é nome de herói. Os nomes são importantes. Os heróis às vezes também."

 

O título do livro é bastante sugestivo, Pepetela conta-nos a relação entre Heitor, um homem tímido, e as mulheres que se cruzam no seu caminho. Poderia ser uma história banal, apenas mais uma, mas desenganem-se, é diferente e é tão tão tão boa!

 

"Outro preconceito existente é o de ser possível  esconder o mal de amor. Tentativa inútil, ele parece estar escrito na nossa cara, nos olhos de cão abandonado, no verdor incrustado na pele, independentemente da cor original, por mais escura que seja. Nunca viram um negro verde? Então nunca viram um negro sofrendo do mal de amor."

 

O autor constrói personagens muito completas e interessantes. Heitor, a personagem principal, é um escritor em início de carreira e um homem tímido, principalmente no que toca a mulheres; Marisa é uma mulher atraente, responsável por um programa de rádio de grande sucesso; Lucrécio é casado com Marisa, dotado de uma mente brilhante mas preso a uma cadeira de rodas; há também o senhor do dia 13, que liga para o programa de Marisa ao 13º dia do mês, entre muitas outras personagens fascinantes. 

 

"Marisa ficou com aquela estranha comichão que lhe dava na planta dos pés quando desejava muito uma coisa. Às vezes nem sabia particularizar, só tinha comichão.Acabava por descobrir, desejo de um gelado, um funji de carne seca ou bagre fumado, qualquer coisa,mas desejo forte havia."

 

Este é um livro sobre desejos, assumidos ou mera suposições, entre homens e mulheres, mas este não é, a meu ver, a temática principal do romance. À semelhança de outros escritores angolanos, também Pepetela oferece ao leitor um retrato da sociedade angolana através das suas histórias. Focando-se principalmente no ambiente frenético vivido em Luanda, o autor dá-nos a conhecer uma sociedade marcada pela violência, corrupção e pelo machismo. As personagens femininas que Pepetela constrói são mulheres de garra, que fazem o que podem para não serem vistas e tratadas como um "objecto sexual" e para terem um lugar na sociedade.

 

A escrita de Pepetela é delicada, bem-humorada e aparentemente humilde, dá até a ideia de que é fácil escrever assim! Tal como Ondjaki, também Pepetela faz uso do "sotaque angolano" através de expressões como: "mata-bicho" (pequeno-almoço), "birra" (cerveja), "kuribotices" (fofocas) e "zungueira" (feirante), acho que o texto fica tão mais rico desta forma!

 

Tal como me recomendaram Pepetela, também eu o recomendo. Sinto-me uma leitora muito mais completa após ter conhecido este e outros escritores angolanos. Vale a pena!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

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