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Claro como a água

Claro como a água

15
Set17

OPINIÃO | A Educação de Eleanor

Eleanor.jpg 

Tí­tulo: A Educação de Eleanor

Autor: Gail Honeyman

Ano da primeira publicação: 2017

Editora: Porto Editora

 

Quando comprei o meu exemplar de A Educação de Eleanor procurava algo mais leve e na realidade este livro pode ser bastante leve se o leitor assim o entender, mas pode antes ser algo mais perto de literatura se formos um pouco mais fundo.

 

Eleanor Oliphant tem uma vida completamente normal, ou pelo menos assim pensa. Eleanor tem 30 anos, vive sozinha e não tem amigos, divide o seu tempo entre um emprego das 9 às 5 num escritório e pizza fria e vodca ao fim de semana. Acredita estar bem assim.

Tenho pena das pessoas bonitas. A beleza, a partir do momento em que a possuímos, está já a dissipar-se, efémera. Deve ser difícil ter constantemente de provar que somos mais do que isso, querer que as pessoas vejam para além da superfície, ser amado por quem somos e não por um corpo deslumbrante, olhos brilhantes ou cabelo denso e luzidio. 

A autora Gail Honeyman construiu uma personagem muito peculiar, a começar pelo seu nome: Eleanor Oliphant. Diria que é quase impossível lê-lo sem que salta à vista a palavra inglesa Elephant (Eleanor Oliphant). É isso mesmo que Eleanor é, um elefante no meio da sala, assunto de todas as conversas, ainda que preferisse passar despercebida e que não a chateassem.

 

Embora a autora nos revele bastante sobre a personalidade de Eleanor, principalmente na primeira metade do livro, até o leitor mais distraído percebe que Eleanor está envolta em mistério. São dadas indicações que nos levam a crer que Eleanor não terá tido uma infância fácil, tem até marcas físicas na cara que indicam isso mesmo, mas ninguém ousa questioná-la sobre a origem dessas marcas.

Eis o que senti: o peso quente das mãos dele nas minhas; a sinceridade do seu sorriso; o calor suave de algo a abrir-se, como as flores se abrem de manhã ao ver o Sol. Sabia o que estava a acontecer. Era o pedacinho não cicatrizado do meu coração. Era grande o suficiente para deixar entrar um bocadinho de afeto. Ainda havia um espacinho minúsculo. 

A Educação de Eleanor está dividido em duas partes: "Dias Bons" e "Dias Maus", a antítese que caracteriza toda a obra, não fosse ela um misto de tristeza e comédia, uma leitura leve ou algo mais perto de "literatura a sério".

 

Classificação no Goodreads: 4/5

04
Set17

OPINIÃO | O Retrato de Dorian Gray

Dorian.PNG 

Tí­tulo: O Retrato de Dorian Gray

Autor: Oscar Wilde

Ano da primeira publicação: 1891

Editora: Relógio d'Água

 

Não sou crítica, não tenho qualquer espécie de formação em literatura, arrisco dizer que percebo tanto de literatura como de culinária, e do segundo não pesco nada. Se há coisa que tenho percebido é que me é muito difícil escrever sobre estes livros, mais do que sobre os outros. E o que são estes livros, perguntaram vocês? São livros maiores, que todos os leitores conhecem, porque já leram ou ouviram falar, cuja grandeza é inquestionável. Tenho tanta dificuldade em encontrar as palavras adequadas e demasiado receio de revelar mais do que me pedem, que acabo por praticamente não falar sobre o livro.

 

Antes de tentar deixem-me contar-vos a minha relação com O Retrato de Dorian Gray, foi-me oferecido quando ainda era uma adolescente. Tentei lê-lo na altura. Não tendo ido além da página 40, devolvi-o à estante e decidi que voltaria a tentar uns anos mais tarde. Passaram 12 anos quando senti que estava pronta para experimentar, 12 anos depois O Retrato de Dorian Gray não é mais o bicho papão da minha estante, é sim, um dos meus clássicos preferidos.

 

Dorian Gray é nos apresentado como um jovem doce e ingénuo, possuidor de uma beleza invulgar. A personagem Dorian Gray sofre transformações constantes ao longo do livro, em grande parte derivado da influência daqueles que o rodeiam. Para Dorian Gray apenas a beleza e a juventude interessam.

Basal é o artista que imortaliza num retrato as duas características que Dorian mais valoriza, tornando-se co-responsável pela desgraça de Dorian.

A vida é uma questão de nervos, fibras e células lentamente construídas nas quais o pensamento se esconde e a paixão tem os seus sonhos.

É sabido que Oscar Wilde foi um influente escritor e crítico social pelo que seria de prever a presença de uma forte componente crítica nas suas obras. Em O Retrato de Dorian Gray, o autor presenteia o leitor com diversas reflexões sobre a sociedade inglesa do século XIX, particularmente a sobrevalorização da aparência e a consequente futilidade e hipocrisia da sociedade.

 

Para mim, a complexidade das personagens (a de Dorian em particular) são o ponto forte desta obra e motivo mais do que suficiente para que O Retrato de Dorian Gray tenha entrado para o topo da minha lista dos melhores clássicos de sempre! Só me arrependo de não o ter lido mais cedo...

 

Classificação no Goodreads: 5/5 

01
Set17

Um Verão inteiro

Nunca tinha estado sem escrever por um período tão longo e por isso agradeço aos resistentes pelas mensagens de motivação.

 

Já perdi a conta ao número de vezes que vos falei sobre a necessidade que tenho de quebrar a rotina para não deixar que pequenos prazeres, como escrever no blog ou ler um livro, se transformem em obrigações. Tal como já dizia o Padre António Vieira, "Não há coisa tão preciosa, e tão útil, que continuada não enfade". A solução para esta espécie de angústia passa por “desligar” de algumas coisas. Infelizmente ainda não consigo prever estas pancadas pelo que não há aviso prévio possível.

 

Três meses é demasiado tempo, ainda mais porque, embora não tenha lido com a frequência habitual, não li assim tão pouco. Vamos lá tentar resumir a coisa.

 

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Os três primeiros livros ainda foram lidos antes de desaparecer do planeta, o último é um livro de contos que comecei a ler algures em Maio e terminei o mês passado. 

Dom Casmurro foi a minha estreia com Machado de Assis, foi a querida Bárbara que sugeriu o autor e este livro em particular. Foram 4 estrelas, a caminho das 5, de uma escrita hilariante e um autor para ler mais e mais e mais!

O Retrato de Dorian Gray, o predileto dos leitores de Oscar Wilde, arrebatou as 5 estrelas tornando-se um dos melhores clássicos (ou livros) de sempre!

O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell foi um livro diferente de tudo o que já li. Citando António Lobo Antunes: "Parabéns ao Editor que decidiu publicá-lo (o livro) e parabéns a ti (leitor) por o teres comprado. Seja qual for o preço que por ele deste, é uma pechincha comparado com o que vais receber". São 4 estrelas.

Sonhos Azuis pelas Esquinas de Ondjaki. Sendo eu uma mega-fã do autor, entristece-me ter de escrever que este ficou aquém das minhas expectativas. Não encontrei nenhum conto que me enchesse o coração, a maior parte dos contos foram medíocres e por isso, para mim são 3 estrelas.

 

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Gut (em inglês) ou A Vida Secreta dos Intestinos (em português) de Giulia Enders foram 4*. O melhor livro que já li sobre o tema: técnico sempre que necessário, prático do início ao fim. Adorei o sentido do humor da autora.

 

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Idiot Brain (título original) ou O Cérebro Idiota - Uma Viagem Através dos Mistérios do Nosso Cérebro de Dean Burnett levou 2*. As primeiras páginas estavam a ser interessantes mas foi tornando-se cada vez mais maçador.

 

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Yoga for Pain Relief de Lee Albert levou 4*. Procurei um livro sobre yoga após ter lido um artigo sobre o potencial do yoga enquanto ferramenta para tratamento e alívio de dores musculares (principalmente posturais). Não percebendo nada do assunto, este livro revelou-se o guia ideal ao introduzir inúmeros conceitos e procedimento básicos à atividade, bem como imagens exemplificativas das posturas descritas. Julgo que o livro não foi traduzido para português, mas a versão inglesa parece-me acessível.

 

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Grain Brain (título original) ou Cérebro de Farinha de David Perlmutter. O autor apresenta teorias (extremistas) interessantes, ainda que por vezes a sua fundamentação seja escassa. Este foi mais "folheado" do que propriamente lido e por isso são 2 estrelas.

 

  

Estou atualmente a ler: 

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O Homem da Areia de Lars Kepler. O problema de ler livros muito bons e extraordinariamente bem escritos é que, quando o leitor pretende ler algo mais leve, nada o satisfaz! Dentro do género, estes são dos autores que mais aprecio, ainda assim este não me está a agradar, ando constantemente a tropeçar na tradução e confesso que as personagens são demasiado cliché. Ando a carregar 500 páginas e ainda só li o primeiro terço do livro.

Economia: Tudo o que precisa de saber de Alfred Mill. Introduz vários temas, dos mais elementares aos mais complexos tentando sempre explorar o lado prático. Muito interessante, ainda que alguns dos temas sejam abordados de forma muito superficial.

Scrum de Jeff Sutherland. Acredito que dificilmente compraria este livro se o visse à venda, mas, por ter sido oferecido por um colega de trabalho, acabei por lhe pegar. Li aproximadamente metade do livro, o suficiente para perceber (ainda que com pouco detalhe) como funciona a ferramenta scrum. Até eu que vibro com planeamento e organização estou fã do método!

 

Outros factos relevantes sobre os últimos três meses:

- Estou gradualmente a render-me ao acordo ortográfico. O facto de ter de escrever segundo o acordo ortográfico no trabalho, não ajuda a levar para a frente a minha indignação e recusa. A prova disso é que escrevi este post segundo o acordo ortográfico sem que me tenha apercebido. Ainda assim, não sei se este é o momento da mudança ou se vou conseguir continuar a luta, prevejo alguma incoerência nos próximos posts.

- Continuo a luta com a Anna Karenina. Aquela versão que comprei na Feira do Livro não é prática na medida em que as letras são muito pequenas. Sim, eu sei que devia ter considerado esse aspeto antes de comprar o livro mas não aconteceu. A solução foi comprar o ebook (por €2!).

- Fui a uma feira de livros usados e não resisti a mais umas boas compras. Trouxe comigo a Rebecca da Daphne du Maurier por €2, o Todos os Nomes do José Saramago por €2, A Trança de Inês da Rosa Lobato de Faria por €3.

- Em agosto fiz 26 anos e, uma vez mais, não recebi nenhum livro como presente.

 

E por fim:

Muito obrigada pela persistência. Prometo voltar à regularidade muito em breve.

 

07
Jun17

OPINIÃO | Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher

Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher.jpg 

Tí­tulo: Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher

Autor: Stefan Zweig

Ano da primeira publicação: 1925

Editora: Civilização Editora

 

Este foi o meu primeiro contacto com o trabalho de Stefan Zweig, não por falta de oportunidade, até porque tenho na estante por ler o Coração Impaciente, mas antes por nunca ter considerado que as suas obras fossem prioridade. Este Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher veio alterar os planos e trazer o nome Stefan Zweig para o topo da lista de autores que tenho que ler o quanto antes.

 

Em poucas palavras: Stefan Zweig nasceu na Áustria em 1881, tinha origem judaica, foi romancista, poeta e jornalista, tornou-se pacifista, fugiu do fascismo, esteve exilado em Inglaterra, Nova Iorque e no Brasil. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, perdeu a crença na humanidade e, juntamente com a sua mulher, suicidou-se. Deixou uma carta:

 

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com a mente lúcida, imponho uma última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e ao meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir a minha vida, agora que o mundo da minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta erecta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado a ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

 

O percurso do autor pode não ter qualquer influência na reacção do leitor às suas obras, mas para mim teve, foi inevitável. 

 

A história que nos é contada pelo autor, tem como mote um acontecimento considerado um escândalo na época em que se desenrola a acção: a Sra. Henriette foge com um jovem que acabara de conhecer, deixando para trás o marido e os filhos. São nos dadas a conhecer as perspectivas de diferentes pessoas, à medida que vão tendo conhecimento do sucedido. O comportamento da Sra. Henritte é condenado por todos, à excepção da Sra. C., uma dama inglesa de setenta anos. É ela que nos leva numa viagem de vinte e quatro horas ao seu passado, incitando à reflexão acerca dos impulsos, do medo de arriscar, de largar tudo e trocar o que consideramos ser o conforto da nossa vida pela felicidade.

 

Para mim, as características mais fascinantes desta pequena obra são: 1) o retrato psicológico que Stefan Zweig faz das personagens, em particular da mulher; 2) as semelhanças com o estilo de Dostoiesvki, não só na caracterização das personagens, mas também nas cenas que decorrem no casino (lembrei-me várias vezes d' O Jogador) e 3) a escrita tão simples mas tão cativante.

 

Já não existia em mim outra testemunha além da minha própria recordação. Depois fiquei mais tranquila. Envelhecer não é, no fundo, senão perder o medo do passado.

 

Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher é um livro muito pequeno (o exemplar que li tinha cerca de 160 páginas) mas com um conteúdo enoooorme! Não há desculpas para não o lerem.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

04
Jun17

OPINIÃO | Amor de Perdição

Amor de Perdição.jpg

Tí­tulo: Amor de Perdição

Autor: Camilo Castelo Branco

Ano da primeira publicação: 1862

Editora: Alêteia

 

Amor de Perdição, um clássico da literatura portuguesa, há muito que constava da minha lista. Sem saber bem o que esperar, da obra e até mesmo do autor, decidi que estava na altura de ler Camilo Castelo Branco e que deveria começar com a sua maior obra.

 

Antes demais, deixem-me expressar a minha desilusão ao perceber que muitos leitores comparam esta obra a Romeu e Julieta de Shakespeare, obras que na minha opinião são incomparáveis. Amor de Perdição tem, tal como a peça de Shakespeare, um homem e uma mulher que se apaixonam "perdidamente", duas famílias que se detestam, mas não tem mais do que isso. Segundo parece o autor inspirou-se em Romeu e Julieta para escrever Amor de Perdição, mas isso não faz com que esta última seja automaticamente apelidada de genial, ou faz? Poderia voltar a explicar que ninguém pode dizer que conhece a história de Romeu e de Julieta sem ter lido a peça de Shakespeare, mas isso é outra conversa.

 

Portanto, existe a relação entre Simão e Teresa, algo que não considero ser amor mas sim uma paixão profundamente dramática, tal como toda a narrativa, triste sem qualquer esperança. Contrariamente ao que sucedeu com as personagens Romeu e Julieta (de Shakespeare), senti que faltava personalidade a Simão e Teresa, pareceu-me tudo tão impessoal que, a certa altura, já nem queria saber como ia terminar a narrativa.

 

Ultrapassado todo este drama e fatalidade, consegui finalmente apreciar a escrita de Camilo Castelo Branco! Algures no tempo foi-me "imposta" a ideia de que a escrita do Camilo era complicada e exigente, não sendo simples é surpreendentemente fluente e agradável.

 

Dito tudo isto, em jeito de resumo, são 4 estrelas à escrita do Camilo Castelo Branco e 2 estrelas à obra em si. Vou ler, assim que possível A Queda dum Anjo que, segundo me disseram, nada tem a ver com Amor de Perdição. Preciso de confirmar que eu e o Camilo não começámos com o pé direito.

 

Classificação no Goodreads: 3/5

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