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Claro como a água

Claro como a água

25
Mai17

OPINIÃO | O Funeral da Nossa Mãe

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Título: O Funeral da Nossa Mãe

Autor: Célia Correia Loureiro

Ano da primeira publicação: 2012

Editora: Alfarroba

 

Quando penso em enredos em torno de famílias, vêm-me à memória obras como A Casa dos Espíritos de Isabel Allende,  Pássaros Feridos de Colleen McCullough e, agora também, O Funeral da Nossa Mãe de Célia Correia Loureiro. O que é que estes livros têm em comum, para além da família, perguntarão vocês? Personagens muito completas e cativantes e uma história muito bem conseguida, ingredientes essenciais e suficientes a uma leitura absorvente.

 

O mote para a história é o suicídio de Carolina e o último pedido que faz às três filhas: Luísa, Cecília e Inês. Este último pedido de Carolina leva as três jovens a reunirem-se em Vila Flor, no Alto Alentejo, onde são conduzidas, pela tia Elisa, ao passado dos pais. Mais do que uma viagem temporal, as três irmãs vivem uma viagem de auto e hetero descoberta que, surpreendentemente ou não, acaba por fortalecer a sua relação.

 

Gostei mesmo muito das personagens que a autora construiu, principalmente das três irmãs, têm personalidades muito distintas e bastante demarcadas: Luísa, é a mais velha e também a mais racional, Cecília mais sentimental e Inês a mais desconfiada.

Senti que as restantes personagens, não menos importantes, estão envoltas em mistério, talvez pelo facto de a autora ir revelando, aos poucos, traços das suas personalidades. Esta característica fez-me nutrir sentimentos contraditórios relativamente a algumas das personagens, culminando numa opinião formada apenas quando já estava a poucas páginas do final do livro. Gosto tanto destas personagens enigmáticas!

 

E o amor transbordava. A cada vez que ele conduzia descalço ou se inclinava sobre um prato de comida, distraído. A sua nuca, as suas mãos, o seu olhar. Os seus comentários vagos, concisos, sem segundas intenções, entredentes. O amor vinha por fora e lavava-a, afogava-a. Bastava que, por um instante, ardesse o espaço entre a sua perna e a dele, a centímetros de distância. Bastava que, por um segundo, a mão dele roçasse o seu braço. Bastava que a mão dela, fingindo-se distraída, fosse agarrar o braço dele. O amor transbordava, vinha por fora, a cada vez que ele era ele, e que ela era ela, a seu lado. Bastava que, em efectivo, girasse o mundo e existissem os dois para que o amor dela, por ele, transbordasse.

 

Fiquei deliciada e surpreendida com a escrita da Célia, muito profunda e madura mas suficientemente directa. Ainda que a escrita seja fluída, deparei-me com algumas entraves como parágrafos demasiado extensos e momentos sem acção algo longos, o que me levou a sentir que, em algumas fases da história a coisa estava a andar devagar e a perder algum interesse. Mas reconheço que isto pode ser um problema meu.

 

A verdade é que, ainda assim, fiquei presa ao livro, quis lê-lo rapidamente de tão bom que estava a ser, e assim que o terminei senti aquele vazio que os bons livros deixam quando viramos a última página.

 

Se não estou em erro a autora tem outros dois livros publicados: Demência e A Filha do Barão, este último um romance histórico. Dada a minha aversão a romances históricos, quero ver se compro o primeiro, se for pelo menos quase tão bom como O Funeral da Nossa Mãe, vou ter de rever a minha lista de autores portugueses favoritos.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

24
Mai17

OPINIÃO | O Paraíso Segundo Lars D.

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Título: O Paraíso Segundo Lars D.

Autor: João Tordo

Ano da primeira publicação: 2015

Editora: Companhia das Letras 

 

Na minha última visita à biblioteca, tencionava requisitar um livro de Rosa Lobato Faria que descobri não estar disponível na altura. Lá decidi que, em alternativa, traria um outro livro escrito por um autor português. Foi assim que parti para o segundo volume da trilogia Lugares Sem Nome.

 

Se bem se recordam, O Luto de Elias Gro, o primeiro volume da trilogia, aqueceu-me o coração e acrescentou o nome João Tordo à lista de autores que quero continuar a ler. Com este segundo volume, O Paraíso Segundo Lars D., fiquei de rastos, no sentido menos bom da expressão.

Fui, inevitavelmente, levada a comparar os dois volumes e a diferença é notória. Senti, ou devo antes dizer que não senti, que falta sentimento, presente ao longo de todo o primeiro volume, e que tanto me deliciou. Mais estranho foi voltar a encontrar estas personagens e ficar com a sensação de que não eram as mesmas que tinha conhecido anteriormente 

 

Ainda assim, a escrita de João Tordo é suficientemente arrebatadora para atenuar o desagrado sentido. A solidão e a busca pelo sentido da existência, temáticas comuns às várias obras do autor, acabam sempre por resultar bem, ainda que umas vezes melhor do que outras.

Somos aqueles que chegaram antes de nós e partiremos com todos os que estiveram connosco.

 

Classificação no Goodreads: 3/5

17
Mai17

OPINIÃO | A História do Amor

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Título: A História do Amor

Autor: Nicole Krauss

Ano da primeira publicação: 2005

Editora: Dom Quixote  

 

Preciso desesperadamente de vos falar sobre um dos livros mais bonitos que alguma vez li. Chama-se A História do Amor, um título talvez demasiado lamechas, nada habitual aqui no blog, mas acreditem quando digo que é absolutamente fantástico e não é nada daquilo que possam eventualmente tentar antever! Fui de tal forma absorvida por esta leitura que quando terminei quis imediatamente voltar à primeira página.

 

Começando pela parte menos boa, A História do Amor é um puzzle que desafia a concentração e memória do leitor. A história é narrada por quatro personagens, todos os capítulos estão identificados com um símbolo característico de cada personagem, que permitem ao leitor identificar imediatamente quem é o narrador de cada capítulo.

 

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A forma como a autora o faz pode por vezes levar o leitor a perder o fio à meada, o que por sua vez pode originar desistências ou incentivar comentários do estilo: "aborrecido", "confuso", "uma desilusão". Não sou mais do que ninguém e também senti, num momento ou noutro, que me estava a perder, tive inclusive de "voltar atrás" em busca de respostas.

A parte boa é que, com um pouco de persistência as peças começam a encaixar e também vocês se vão deixar absorver por esta leitura sensacional.

  

FAQ d'A História do Amor:

 

Tanta conversa, mas afinal este livro é sobre o quê? 

É sobre Leopoldo Gursky, um rapaz que amava Alma, uma rapariga cujo riso "era uma pergunta que Leopoldo queria passar a vida inteira a responder". Leopoldo decidiu, aos dez anos de idade que Alma era a mulher da sua vida e assim foi, só não da forma que estão a pensar.

 

Então porque raio é que dizes que não é lamechas?

Porque um livro sobre a vida e morte de um escritor, a perda e solidão de um homem que percebe de fechaduras e a religião dos dois não tem de ser lamechas.

 

Vai-me fazer chorar baba e ranho?

Não, mas é capaz de te deixar com uma lágrima no canto do olho.

 

Porque é que devo ler este livro?

Porque é dos melhores livros que já me passaram pelas mãos. Porque tem passagens lindíssimas. Porque as personagens são marcantes. Porque é um livro sobre um livro. Porque faz referência a escritores como Kafka, Jorge Luis Borges, Saint Exupéry e Tolstói. Porque é uma história bonita. Porque estou sem palavras e só um livro extraordinário tem esse efeito no leitor.

 

O que devo saber antes de ler este livro?

Começa a lê-lo quando efectivamente tiveres tempo para o ler, não é um livro que deva levar semanas ou meses para ser lido, sob pena de te perderes na história e abandonares a leitura.

 

Era uma vez um rapaz. Vivia numa aldeia que já não existe, numa casa que já não existe, na orla de um campo que já não existe, lugar de todas as descobertas e onde tudo era possível. Um pau podia ser uma espada. Uma pedra podia ser um diamante. Uma árvore um castelo.
Era uma vez um rapaz que vivia numa casa do outro lado do campo onde vivia uma rapariga que já não existe. Inventavam mil jogos. Ela era a Rainha e ele o Rei. Na luz do Outono, o cabelo dela brilhava como uma coroa. Bebiam o mundo em pequenas mãos-cheias. Quando o céu escurecia, apartavam-se com folhas nos cabelos.

 

E porque gosto de partilhar a minha opinião sem estragar as vossas futuras leituras, acabaram de ler um post onde não escrevi nada de jeito mas que espero, sinceramente, vos leve a equacionar ler A História do Amor.

 

Classificação no Goodreads: 5/5

12
Mai17

OPINIÃO | Boneca de Luxo

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Título: Boneca de Luxo

Autor: Truman Capote

Ano da primeira publicação: 1958

Editora: Dom Quixote 

Nunca me vou habituar a nada, e quem se habituar mais vale estar morto.

 

Boneca de Luxo, ou Breakfast at Tiffany's no original, foi o eleito pelo Clube dos Clássicos Vivos para o mês de Maio. Não tendo grandes expectativas relativamente a esta obra, não sei se por ignorância ou pela sinopse, esta leitura revelou-se uma (boa) surpresa!

 

Este é um daqueles livros que vale pelas personagens, e como é fácil ficar rendida a este tipo de livros! Não encontrei na história nada de inovador, intrigante ou complexo, para além do elenco. Personagens carismáticas, extravagantes e por vezes enigmáticas que me trazem à memória um outro grande clássico, um dos meus preferidos: "O Grande Gatsby".

 

Holly Golightly é a personagem principal, uma jovem de 19 anos, extravagante, de espírito livre e que procura continuamente a sua casa. 

Se eu pudesse encontrar um lugar da vida real que me fizesse sentir como Tiffany, então eu ia comprar alguns móveis e dar um nome ao gato.

Paul (ou Fred) é o narrador desta história, escritor e vizinho de Holly, desenvolve com ela uma amizade, em geral bonita mas quase sempre dolorosa. É Paul quem nos conta a história de Holly.

A escrita de Truman Capote é simples, mas um simples agradável, não precisa de mais, prova disso mesmo é a atmosfera encantadora que envolve esta história.

 

Não quero revelar mais do que devo, leiam e vão perceber o encanto.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

 

09
Mai17

OPINIÃO | A Insustentável Leveza do Ser

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Tí­tulo: A Insustentável Leveza do Ser

Autor: Milan Kundera

Ano da primeira publicação: 1984

Editora: Edições BIS

 

Quando comecei a pensar no que iria escrever sobre A Insustentável Leveza do Ser fui arrebatada por diferentes pensamentos, pensei na vida, nos acasos, na felicidade, na morte, no peso, na leveza, em Karenine, no meu cão, em Tolstoi e em tantas outras coisas. Divaguei, tal como Milan Kundera faz nesta obra.

 

Se me perguntarem do que trata este livro, não saberei dar uma resposta exacta e, provavelmente, acabarei por responder que se passa em Praga, algures na década de 60 e que trata tudo sobre a vida, das questões mais complexas às mais banais, das mais perturbadoras às mais serenas. Milan Kundera leva-nos numa viagem pela mente humana, traduz em palavras o que poucos ousam sequer pensar, conduz o leitor à reflexão.

 

Poucas páginas bastaram para que me apaixonasse pelas personagens: Tomas, Tereza, Sabina, Franz e Karenine.

 

Sete anos antes, declarara-se por acaso um surto muito grave de meningite no hospital da cidade de Tereza e o chefe do serviço onde Tomas trabalhava fora chamado de urgência. Mas, por acaso, o chefe do serviço estava com ciática e, como não se podia mexer, Tomas fora em seu lugar a esse hospital de província. Havia cinco hotéis na cidade mas, por acaso, Tomas instalara-se no hotel onde Tereza trabalhava. Por acaso, ficara uns momentos livres antes de ir para o comboio e fora sentar-se na cervejaria. Tereza estava, por acaso, de serviço e, por acaso, estava de serviço à mesa de Tomas. Fora portanto necessária toda uma série de seis acasos para fazer chegar Tomas até Tereza, como se, entregue a si próprio, nunca tivesse podido encontrá-la.

 

A escrita é das mais profundas que já encontrei, com uma linguagem descomplicada e estranhamente fluída. Dada a temática filosófica, seria expectável que o livro fosse um pouco "maçador", mas o autor conseguiu tornar tudo mais fácil.

 

Tomas ainda não sabia que as metáforas são uma coisa perigosa. Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.

 

Por entre toda a melancolia que esta leitura me trouxe, reconheço a grandeza e importância da obra. É, sem dúvida alguma, um livro obrigatório!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

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