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Claro como a água

Claro como a água

07
Jun17

OPINIÃO | Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher

Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher.jpg 

Tí­tulo: Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher

Autor: Stefan Zweig

Ano da primeira publicação: 1925

Editora: Civilização Editora

 

Este foi o meu primeiro contacto com o trabalho de Stefan Zweig, não por falta de oportunidade, até porque tenho na estante por ler o Coração Impaciente, mas antes por nunca ter considerado que as suas obras fossem prioridade. Este Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher veio alterar os planos e trazer o nome Stefan Zweig para o topo da lista de autores que tenho que ler o quanto antes.

 

Em poucas palavras: Stefan Zweig nasceu na Áustria em 1881, tinha origem judaica, foi romancista, poeta e jornalista, tornou-se pacifista, fugiu do fascismo, esteve exilado em Inglaterra, Nova Iorque e no Brasil. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, perdeu a crença na humanidade e, juntamente com a sua mulher, suicidou-se. Deixou uma carta:

 

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com a mente lúcida, imponho uma última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e ao meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir a minha vida, agora que o mundo da minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta erecta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado a ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

 

O percurso do autor pode não ter qualquer influência na reacção do leitor às suas obras, mas para mim teve, foi inevitável. 

 

A história que nos é contada pelo autor, tem como mote um acontecimento considerado um escândalo na época em que se desenrola a acção: a Sra. Henriette foge com um jovem que acabara de conhecer, deixando para trás o marido e os filhos. São nos dadas a conhecer as perspectivas de diferentes pessoas, à medida que vão tendo conhecimento do sucedido. O comportamento da Sra. Henritte é condenado por todos, à excepção da Sra. C., uma dama inglesa de setenta anos. É ela que nos leva numa viagem de vinte e quatro horas ao seu passado, incitando à reflexão acerca dos impulsos, do medo de arriscar, de largar tudo e trocar o que consideramos ser o conforto da nossa vida pela felicidade.

 

Para mim, as características mais fascinantes desta pequena obra são: 1) o retrato psicológico que Stefan Zweig faz das personagens, em particular da mulher; 2) as semelhanças com o estilo de Dostoiesvki, não só na caracterização das personagens, mas também nas cenas que decorrem no casino (lembrei-me várias vezes d' O Jogador) e 3) a escrita tão simples mas tão cativante.

 

Já não existia em mim outra testemunha além da minha própria recordação. Depois fiquei mais tranquila. Envelhecer não é, no fundo, senão perder o medo do passado.

 

Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher é um livro muito pequeno (o exemplar que li tinha cerca de 160 páginas) mas com um conteúdo enoooorme! Não há desculpas para não o lerem.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

04
Jun17

OPINIÃO | Amor de Perdição

Amor de Perdição.jpg

Tí­tulo: Amor de Perdição

Autor: Camilo Castelo Branco

Ano da primeira publicação: 1862

Editora: Alêteia

 

Amor de Perdição, um clássico da literatura portuguesa, há muito que constava da minha lista. Sem saber bem o que esperar, da obra e até mesmo do autor, decidi que estava na altura de ler Camilo Castelo Branco e que deveria começar com a sua maior obra.

 

Antes demais, deixem-me expressar a minha desilusão ao perceber que muitos leitores comparam esta obra a Romeu e Julieta de Shakespeare, obras que na minha opinião são incomparáveis. Amor de Perdição tem, tal como a peça de Shakespeare, um homem e uma mulher que se apaixonam "perdidamente", duas famílias que se detestam, mas não tem mais do que isso. Segundo parece o autor inspirou-se em Romeu e Julieta para escrever Amor de Perdição, mas isso não faz com que esta última seja automaticamente apelidada de genial, ou faz? Poderia voltar a explicar que ninguém pode dizer que conhece a história de Romeu e de Julieta sem ter lido a peça de Shakespeare, mas isso é outra conversa.

 

Portanto, existe a relação entre Simão e Teresa, algo que não considero ser amor mas sim uma paixão profundamente dramática, tal como toda a narrativa, triste sem qualquer esperança. Contrariamente ao que sucedeu com as personagens Romeu e Julieta (de Shakespeare), senti que faltava personalidade a Simão e Teresa, pareceu-me tudo tão impessoal que, a certa altura, já nem queria saber como ia terminar a narrativa.

 

Ultrapassado todo este drama e fatalidade, consegui finalmente apreciar a escrita de Camilo Castelo Branco! Algures no tempo foi-me "imposta" a ideia de que a escrita do Camilo era complicada e exigente, não sendo simples é surpreendentemente fluente e agradável.

 

Dito tudo isto, em jeito de resumo, são 4 estrelas à escrita do Camilo Castelo Branco e 2 estrelas à obra em si. Vou ler, assim que possível A Queda dum Anjo que, segundo me disseram, nada tem a ver com Amor de Perdição. Preciso de confirmar que eu e o Camilo não começámos com o pé direito.

 

Classificação no Goodreads: 3/5

25
Mai17

OPINIÃO | O Funeral da Nossa Mãe

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Título: O Funeral da Nossa Mãe

Autor: Célia Correia Loureiro

Ano da primeira publicação: 2012

Editora: Alfarroba

 

Quando penso em enredos em torno de famílias, vêm-me à memória obras como A Casa dos Espíritos de Isabel Allende,  Pássaros Feridos de Colleen McCullough e, agora também, O Funeral da Nossa Mãe de Célia Correia Loureiro. O que é que estes livros têm em comum, para além da família, perguntarão vocês? Personagens muito completas e cativantes e uma história muito bem conseguida, ingredientes essenciais e suficientes a uma leitura absorvente.

 

O mote para a história é o suicídio de Carolina e o último pedido que faz às três filhas: Luísa, Cecília e Inês. Este último pedido de Carolina leva as três jovens a reunirem-se em Vila Flor, no Alto Alentejo, onde são conduzidas, pela tia Elisa, ao passado dos pais. Mais do que uma viagem temporal, as três irmãs vivem uma viagem de auto e hetero descoberta que, surpreendentemente ou não, acaba por fortalecer a sua relação.

 

Gostei mesmo muito das personagens que a autora construiu, principalmente das três irmãs, têm personalidades muito distintas e bastante demarcadas: Luísa, é a mais velha e também a mais racional, Cecília mais sentimental e Inês a mais desconfiada.

Senti que as restantes personagens, não menos importantes, estão envoltas em mistério, talvez pelo facto de a autora ir revelando, aos poucos, traços das suas personalidades. Esta característica fez-me nutrir sentimentos contraditórios relativamente a algumas das personagens, culminando numa opinião formada apenas quando já estava a poucas páginas do final do livro. Gosto tanto destas personagens enigmáticas!

 

E o amor transbordava. A cada vez que ele conduzia descalço ou se inclinava sobre um prato de comida, distraído. A sua nuca, as suas mãos, o seu olhar. Os seus comentários vagos, concisos, sem segundas intenções, entredentes. O amor vinha por fora e lavava-a, afogava-a. Bastava que, por um instante, ardesse o espaço entre a sua perna e a dele, a centímetros de distância. Bastava que, por um segundo, a mão dele roçasse o seu braço. Bastava que a mão dela, fingindo-se distraída, fosse agarrar o braço dele. O amor transbordava, vinha por fora, a cada vez que ele era ele, e que ela era ela, a seu lado. Bastava que, em efectivo, girasse o mundo e existissem os dois para que o amor dela, por ele, transbordasse.

 

Fiquei deliciada e surpreendida com a escrita da Célia, muito profunda e madura mas suficientemente directa. Ainda que a escrita seja fluída, deparei-me com algumas entraves como parágrafos demasiado extensos e momentos sem acção algo longos, o que me levou a sentir que, em algumas fases da história a coisa estava a andar devagar e a perder algum interesse. Mas reconheço que isto pode ser um problema meu.

 

A verdade é que, ainda assim, fiquei presa ao livro, quis lê-lo rapidamente de tão bom que estava a ser, e assim que o terminei senti aquele vazio que os bons livros deixam quando viramos a última página.

 

Se não estou em erro a autora tem outros dois livros publicados: Demência e A Filha do Barão, este último um romance histórico. Dada a minha aversão a romances históricos, quero ver se compro o primeiro, se for pelo menos quase tão bom como O Funeral da Nossa Mãe, vou ter de rever a minha lista de autores portugueses favoritos.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

24
Mai17

OPINIÃO | O Paraíso Segundo Lars D.

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Título: O Paraíso Segundo Lars D.

Autor: João Tordo

Ano da primeira publicação: 2015

Editora: Companhia das Letras 

 

Na minha última visita à biblioteca, tencionava requisitar um livro de Rosa Lobato Faria que descobri não estar disponível na altura. Lá decidi que, em alternativa, traria um outro livro escrito por um autor português. Foi assim que parti para o segundo volume da trilogia Lugares Sem Nome.

 

Se bem se recordam, O Luto de Elias Gro, o primeiro volume da trilogia, aqueceu-me o coração e acrescentou o nome João Tordo à lista de autores que quero continuar a ler. Com este segundo volume, O Paraíso Segundo Lars D., fiquei de rastos, no sentido menos bom da expressão.

Fui, inevitavelmente, levada a comparar os dois volumes e a diferença é notória. Senti, ou devo antes dizer que não senti, que falta sentimento, presente ao longo de todo o primeiro volume, e que tanto me deliciou. Mais estranho foi voltar a encontrar estas personagens e ficar com a sensação de que não eram as mesmas que tinha conhecido anteriormente 

 

Ainda assim, a escrita de João Tordo é suficientemente arrebatadora para atenuar o desagrado sentido. A solidão e a busca pelo sentido da existência, temáticas comuns às várias obras do autor, acabam sempre por resultar bem, ainda que umas vezes melhor do que outras.

Somos aqueles que chegaram antes de nós e partiremos com todos os que estiveram connosco.

 

Classificação no Goodreads: 3/5

17
Mai17

OPINIÃO | A História do Amor

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Título: A História do Amor

Autor: Nicole Krauss

Ano da primeira publicação: 2005

Editora: Dom Quixote  

 

Preciso desesperadamente de vos falar sobre um dos livros mais bonitos que alguma vez li. Chama-se A História do Amor, um título talvez demasiado lamechas, nada habitual aqui no blog, mas acreditem quando digo que é absolutamente fantástico e não é nada daquilo que possam eventualmente tentar antever! Fui de tal forma absorvida por esta leitura que quando terminei quis imediatamente voltar à primeira página.

 

Começando pela parte menos boa, A História do Amor é um puzzle que desafia a concentração e memória do leitor. A história é narrada por quatro personagens, todos os capítulos estão identificados com um símbolo característico de cada personagem, que permitem ao leitor identificar imediatamente quem é o narrador de cada capítulo.

 

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A forma como a autora o faz pode por vezes levar o leitor a perder o fio à meada, o que por sua vez pode originar desistências ou incentivar comentários do estilo: "aborrecido", "confuso", "uma desilusão". Não sou mais do que ninguém e também senti, num momento ou noutro, que me estava a perder, tive inclusive de "voltar atrás" em busca de respostas.

A parte boa é que, com um pouco de persistência as peças começam a encaixar e também vocês se vão deixar absorver por esta leitura sensacional.

  

FAQ d'A História do Amor:

 

Tanta conversa, mas afinal este livro é sobre o quê? 

É sobre Leopoldo Gursky, um rapaz que amava Alma, uma rapariga cujo riso "era uma pergunta que Leopoldo queria passar a vida inteira a responder". Leopoldo decidiu, aos dez anos de idade que Alma era a mulher da sua vida e assim foi, só não da forma que estão a pensar.

 

Então porque raio é que dizes que não é lamechas?

Porque um livro sobre a vida e morte de um escritor, a perda e solidão de um homem que percebe de fechaduras e a religião dos dois não tem de ser lamechas.

 

Vai-me fazer chorar baba e ranho?

Não, mas é capaz de te deixar com uma lágrima no canto do olho.

 

Porque é que devo ler este livro?

Porque é dos melhores livros que já me passaram pelas mãos. Porque tem passagens lindíssimas. Porque as personagens são marcantes. Porque é um livro sobre um livro. Porque faz referência a escritores como Kafka, Jorge Luis Borges, Saint Exupéry e Tolstói. Porque é uma história bonita. Porque estou sem palavras e só um livro extraordinário tem esse efeito no leitor.

 

O que devo saber antes de ler este livro?

Começa a lê-lo quando efectivamente tiveres tempo para o ler, não é um livro que deva levar semanas ou meses para ser lido, sob pena de te perderes na história e abandonares a leitura.

 

Era uma vez um rapaz. Vivia numa aldeia que já não existe, numa casa que já não existe, na orla de um campo que já não existe, lugar de todas as descobertas e onde tudo era possível. Um pau podia ser uma espada. Uma pedra podia ser um diamante. Uma árvore um castelo.
Era uma vez um rapaz que vivia numa casa do outro lado do campo onde vivia uma rapariga que já não existe. Inventavam mil jogos. Ela era a Rainha e ele o Rei. Na luz do Outono, o cabelo dela brilhava como uma coroa. Bebiam o mundo em pequenas mãos-cheias. Quando o céu escurecia, apartavam-se com folhas nos cabelos.

 

E porque gosto de partilhar a minha opinião sem estragar as vossas futuras leituras, acabaram de ler um post onde não escrevi nada de jeito mas que espero, sinceramente, vos leve a equacionar ler A História do Amor.

 

Classificação no Goodreads: 5/5

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