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Claro como a água

Claro como a água

06
Abr17

OPINIÃO | AvóDezanove e o Segredo do Soviético

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Título: AvóDezanove e o Segredo do Soviético

Autor: Ondjaki

Ano da primeira publicação: 2008

Editora: Editorial Caminho

 

Já várias vezes falei das obras de Ondjaki, das personagens que lá vivem, da forma como o autor retrata a infância, do modo inexplicável e inconfundível de descrever sensações (gosto particularmente das referências ao olfacto). O autor consegue descrever a saudade e as despedidas com uma sensibilidade extrema, mas de uma forma doce que faz parecer que alguém nos está a cantar a história ao ouvido.

 

Este foi o sexto livro de Ondjaki que me passou pelas mãos e, tal como os restantes, deixou saudades assim que virei a última página. Saudades do Espuma-DoMar o matemático maluco que tinha um jacaré no quintal, do Pinduca, o Pi ou 3,14 como era conhecido no bairro, do narrador sem nome e da sua paixão por filmes de cowboys, da AvóAgnette e da sua característica peculiar, do Camarada VendedorDeGasolina que podia dormir muito porque a bomba nunca tinha gasolina, da Avó Catarina que só aparecia quando queria e que não deixava nada por dizer, do soviético camarada Botardov que tinha esse nome "por causa do modo como ele dizia, quase a falar soviético, "bótard", mesmo que fosse de manhã cedo ou à noite já bem noitinha”.

 

Esta é a história da construção do Mausoléu na PraiaDoBispo, o monumento destinado a albergar o corpo do falecido presidente Agostinho Neto, mas é principalmente, a história daquele lugar, das pessoas que lá habitam, adultos e crianças que partilham o desejo de continuar a correr pela PraiaDoBispo. 

A Avó me mandou um beijo voado, beijado na mão dela a sorrir, acho que a dança lhe fez bem, a cara dela parecia mais calma e até caminhava melhor. Era o milagre da música, como dizia o Espuma-DoMar: - Os meus pés conhecem a verdade que o meu coração sente quando os meus ouvidos sorriem. A música é o milagre que os comunistas já autorizaram de acontecer, ahahah. A bailar, compañeros.

 

Tenho-me deliciado a ler os livros de Ondjaki, não há dúvida de que é um dos mais brilhantes escritores lusófonos da actualidade. Para os curiosos que desconhecem o trabalho do mágico Ondjaki, sugiro que experimentem Uma Escuridão Bonita, vão adorar!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

 

20
Jul16

CITAÇÃO | Ondjaki e as despedidas

Eu acho que nunca cheguei a dizer a ninguém, talvez só mesmo à Romina, mas na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber. Não gosto mesmo de despedidas.

 

em Os Da Minha Rua de Ondjaki

04
Jul16

OPINIÃO | Os Da Minha Rua

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Título: Os da minha rua

Autor: Ondjaki

Ano de publicação: 2007

Editora: Caminho

 

Quem nunca leu Ondjaki ou qualquer outro escritor lusófono africano não imagina o que está a perder. Escrevo isto as vezes que forem necessárias até que pelo menos um de vós me diga que experimentou. 

 

Este é o meu quinto livro do autor e já tenho o sexto à espera na estante. Para aqueles que não conhecem o Ondjaki deixem-me que o apresente: 

Ondjaki, ou Ndalu de Almeida, nasceu em Angola em 1977, tem vários livros publicados, ganhou vários prémios, mas melhor do que escrever sobre as suas origens e sobre a sua vida é mostrar-vos o que o torna especial. Ondjaki é aquele escritor que diz que "a poesia não é a chuva, é o barulho da chuva" e que "toda a estrela é luz bonita que nunca soube descansar de alegrar a noite" e diz ainda que "a despedida tem cheiro de amizade cinzenta".

 

Os da minha rua é um livro de memórias de infância, daquela que foi a infância de Ondjaki e daqueles que com ele se cruzaram naqueles tempos em Luanda. O livro acaba por ser um hino à infância, à amizade, à família, à descoberta, aos risos e às gargalhadas. Mas é também um livro que nos ajuda a relativizar as pequenas dificuldades da vida e que nos lembra dos tempos em que sorrir era tão mais fácil. 

 

O livro está organizado em pequenos textos/contos, em cada conto a infância é descrita com recurso à memória de Ondjaki e aos sentidos, principalmente os cheiros e sons. Adoro a forma como o autor nos transporta para um espaço assim tão completo.

 

"O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança."

 

A escrita essa é pura, simples e tão envolvente. Podia achar-se que escrever sobre a infância é por si só suficiente para envolver o leitor, mas parece-me que o sucesso não é garantido. É preciso que a escrita nos aconchegue tal como a infância deve ser aconchegante, infelizmente mais para uns do que para outros, e é preciso que a escrita seja suficientemente eficaz para que o leitor seja transportado à sua própria infância. Adivinhem lá, este livro tem isso tudo e muito mais!

 

"A infância é uma coisa assim bonita: caímos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos."

 

Um livro de arrepiar que nos toca no coração, tal como todos os outros livros de Ondjaki tocam.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

13
Jun16

OPINIÃO | Os Transparentes

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Título: Os Transparentes

Autor: Ondjaki

Ano de publicação: 2012

Editora: Editorial Caminho

 

Aquele jeito de transformar prosa em poesia que caracteriza a escrita de Ondjaki deixa-me com um sorriso nos lábios e enche-me a alma. Assim foi com Uma Escuridão Bonita, seguiu-se Bom Dia Camaradasjá em modo romance, e o mesmo aconteceu com a obra de contos E Se Amanhã o Medo.

 

Os Transparentes foi o primeiro romance "a sério" que li do autor, é uma obra completamente diferente das outras que já li, mais expressiva e mais crítica em relação àquela que é a Angola dos dias de hoje. Esta obra é um retrato de Luanda e do seu povo característico. Toda a agitação febril, a autenticidade do povo africano, os esquemas e a corrupção são aqui caracterizados através da escrita poética e inspiradora de Ondjaki.

 

A obra tem como pano de fundo o prédio do LargoDaMaianga em Luanda. O prédio é o lugar de encontros e desencontros e é lá que tudo acontece. As personagens desta obra são muito ricas e únicas, algumas delas são verdadeiros tesouros. Não existe uma personagem principal, existem antes várias personagens e várias histórias, igualmente relevantes: um homem que inicia um processo de transparência física, um cientista honesto que é desacreditado por ter informações inconvenientes, um carteiro que queria simplesmente ter um veículo que facilitasse a vida às suas pernas cansadas, uma polícia que só funciona através de suborno e um governo corrupto.

 

“Odonato já não tinha força para desenhar nos lábios um gesto mínimo de espanto ou o que fosse um vulgar sorriso, a temperatura chegava-lhe à alma, os olhos ardiam por dentro chorar afinal não tinha que ver com lágrimas, antes era o metamorfosear de movimentos internos, a alma tinha paredes - texturas porosas que vozes e memórias podiam alterar."

 

A escrita de Ondjaki é deliciosa, cheia de expressões locais, caricata em alguns momentos, mas também comovente, um estilo que faz lembrar Mia Couto e José Saramago. Não me farto de recomendar as obras de Ondjaki, faz tão bem à alma e fica bem em qualquer estante!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

11
Mai16

OPINIÃO | E Se Amanhã O Medo

E Se Amanhã O Medo

 

Título: E Se Amanhã O Medo

Autor: Ondjaki

Ano de publicação: 2005

Editora: Editorial Caminho

 

Livros de contos é algo que nunca despertou o meu interesse, apesar de ter alguns na estante nunca senti vontade de lhes pegar. Mas este é claramente um ano de descobertas e como tal tinha de ler um livro de contos de um autor que descobri este ano (e que já devem estar fartos de ouvir falar aqui no blog): Ondjaki! 

Gosto muito da escrita de Ondjaki! Não sei se é por as suas histórias serem narradas por crianças mas a escrita é muito leve e fresca, com uma grande dose de imaginação, quer ao nível das palavras, quer ao nível das histórias, as suas obras são deliciosas.

 

Ondjaki brinca com os nossos sentidos, pergunta pela impossibilidade e desaparece sem deixar resposta, todos os contos parecem inacabados não havendo uma ligação entre a realidade e o mundo imaginário do autor. No entanto, de alguma forma este livro não foi tão empolgante como os outros que li, penso que isso se deve à profundidade da obra. Sendo um livro de contos, alguns muito curtos, e não existindo a ingenuidade e o sentido de humor das outras obras que li, o livro torna-se mais pesado. No entanto, quero fazer uma ressalva: não sendo bem aquilo que esperava, é muito muito muito bom! 

 

Uma das características do autor é a capacidade de descrever sensações, em particular cheiros e sabores, já havia constatado isso nas outras duas obras que li. Em todos os contos, ainda que de formas diferentes, encontramos referência a pelo menos um dos sentidos:

 

"Vivia obcecado com a ideia de conhecer outros países, mais do que isso!, outras gentes, como se as suas veias fossem irrigadas por sensações movediças e volúveis ao empurrão do vento, nisso que era o seu prazer mais íntimo: observar os que chegavam, cheirar-lhes os cabelos, catalogar-lhes o sorriso segundo a proveniência, e, quase imperceptivelmente, fazê-los falar de coisas banais acontecidas do outro lado do mundo.”

 

Achei curioso que todos os contos estejam acompanhados de uma espécie de dedicatória, o meu preferido o "Candeeiros" é descrito pelo autor como sendo "palavras para Antoine Saint-Exupéry e para o Principezinho". Reparem na genialidade:

 

"Eu é que ponho luz nas noites, meto medo na escuridão, invento pirilampos na cidade (...) julgo ter sido poeta das luzes, escrevedor das velas, conhecedor das ceras escorridas, quer dizer, artífice das minúsculas luzes amarelas (...) e eu, quem me acendeu sempre, enquanto acendi estrelas aqui na terra? (...) todos os dias me despeço dos últimos candeeiros que ainda me acendem o coração."

 

Sendo um livro de contos, bem pequenino e muito bem escrito, é um livro muito fácil de ler e ideal para quem não tem muito tempo. Não sei se é preciso mais do que estas palavras para vos convencer a ler Ondjaki, deixem-se levar pela sua imaginação!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

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