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Claro como a água

Claro como a água

01
Set17

Um Verão inteiro

Nunca tinha estado sem escrever por um período tão longo e por isso agradeço aos resistentes pelas mensagens de motivação.

 

Já perdi a conta ao número de vezes que vos falei sobre a necessidade que tenho de quebrar a rotina para não deixar que pequenos prazeres, como escrever no blog ou ler um livro, se transformem em obrigações. Tal como já dizia o Padre António Vieira, "Não há coisa tão preciosa, e tão útil, que continuada não enfade". A solução para esta espécie de angústia passa por “desligar” de algumas coisas. Infelizmente ainda não consigo prever estas pancadas pelo que não há aviso prévio possível.

 

Três meses é demasiado tempo, ainda mais porque, embora não tenha lido com a frequência habitual, não li assim tão pouco. Vamos lá tentar resumir a coisa.

 

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Os três primeiros livros ainda foram lidos antes de desaparecer do planeta, o último é um livro de contos que comecei a ler algures em Maio e terminei o mês passado. 

Dom Casmurro foi a minha estreia com Machado de Assis, foi a querida Bárbara que sugeriu o autor e este livro em particular. Foram 4 estrelas, a caminho das 5, de uma escrita hilariante e um autor para ler mais e mais e mais!

O Retrato de Dorian Gray, o predileto dos leitores de Oscar Wilde, arrebatou as 5 estrelas tornando-se um dos melhores clássicos (ou livros) de sempre!

O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell foi um livro diferente de tudo o que já li. Citando António Lobo Antunes: "Parabéns ao Editor que decidiu publicá-lo (o livro) e parabéns a ti (leitor) por o teres comprado. Seja qual for o preço que por ele deste, é uma pechincha comparado com o que vais receber". São 4 estrelas.

Sonhos Azuis pelas Esquinas de Ondjaki. Sendo eu uma mega-fã do autor, entristece-me ter de escrever que este ficou aquém das minhas expectativas. Não encontrei nenhum conto que me enchesse o coração, a maior parte dos contos foram medíocres e por isso, para mim são 3 estrelas.

 

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Gut (em inglês) ou A Vida Secreta dos Intestinos (em português) de Giulia Enders foram 4*. O melhor livro que já li sobre o tema: técnico sempre que necessário, prático do início ao fim. Adorei o sentido do humor da autora.

 

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Idiot Brain (título original) ou O Cérebro Idiota - Uma Viagem Através dos Mistérios do Nosso Cérebro de Dean Burnett levou 2*. As primeiras páginas estavam a ser interessantes mas foi tornando-se cada vez mais maçador.

 

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Yoga for Pain Relief de Lee Albert levou 4*. Procurei um livro sobre yoga após ter lido um artigo sobre o potencial do yoga enquanto ferramenta para tratamento e alívio de dores musculares (principalmente posturais). Não percebendo nada do assunto, este livro revelou-se o guia ideal ao introduzir inúmeros conceitos e procedimento básicos à atividade, bem como imagens exemplificativas das posturas descritas. Julgo que o livro não foi traduzido para português, mas a versão inglesa parece-me acessível.

 

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Grain Brain (título original) ou Cérebro de Farinha de David Perlmutter. O autor apresenta teorias (extremistas) interessantes, ainda que por vezes a sua fundamentação seja escassa. Este foi mais "folheado" do que propriamente lido e por isso são 2 estrelas.

 

  

Estou atualmente a ler: 

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O Homem da Areia de Lars Kepler. O problema de ler livros muito bons e extraordinariamente bem escritos é que, quando o leitor pretende ler algo mais leve, nada o satisfaz! Dentro do género, estes são dos autores que mais aprecio, ainda assim este não me está a agradar, ando constantemente a tropeçar na tradução e confesso que as personagens são demasiado cliché. Ando a carregar 500 páginas e ainda só li o primeiro terço do livro.

Economia: Tudo o que precisa de saber de Alfred Mill. Introduz vários temas, dos mais elementares aos mais complexos tentando sempre explorar o lado prático. Muito interessante, ainda que alguns dos temas sejam abordados de forma muito superficial.

Scrum de Jeff Sutherland. Acredito que dificilmente compraria este livro se o visse à venda, mas, por ter sido oferecido por um colega de trabalho, acabei por lhe pegar. Li aproximadamente metade do livro, o suficiente para perceber (ainda que com pouco detalhe) como funciona a ferramenta scrum. Até eu que vibro com planeamento e organização estou fã do método!

 

Outros factos relevantes sobre os últimos três meses:

- Estou gradualmente a render-me ao acordo ortográfico. O facto de ter de escrever segundo o acordo ortográfico no trabalho, não ajuda a levar para a frente a minha indignação e recusa. A prova disso é que escrevi este post segundo o acordo ortográfico sem que me tenha apercebido. Ainda assim, não sei se este é o momento da mudança ou se vou conseguir continuar a luta, prevejo alguma incoerência nos próximos posts.

- Continuo a luta com a Anna Karenina. Aquela versão que comprei na Feira do Livro não é prática na medida em que as letras são muito pequenas. Sim, eu sei que devia ter considerado esse aspeto antes de comprar o livro mas não aconteceu. A solução foi comprar o ebook (por €2!).

- Fui a uma feira de livros usados e não resisti a mais umas boas compras. Trouxe comigo a Rebecca da Daphne du Maurier por €2, o Todos os Nomes do José Saramago por €2, A Trança de Inês da Rosa Lobato de Faria por €3.

- Em agosto fiz 26 anos e, uma vez mais, não recebi nenhum livro como presente.

 

E por fim:

Muito obrigada pela persistência. Prometo voltar à regularidade muito em breve.

 

06
Abr17

OPINIÃO | AvóDezanove e o Segredo do Soviético

 AvóDezanove_Ondjaki.jpg 

Título: AvóDezanove e o Segredo do Soviético

Autor: Ondjaki

Ano da primeira publicação: 2008

Editora: Editorial Caminho

 

Já várias vezes falei das obras de Ondjaki, das personagens que lá vivem, da forma como o autor retrata a infância, do modo inexplicável e inconfundível de descrever sensações (gosto particularmente das referências ao olfacto). O autor consegue descrever a saudade e as despedidas com uma sensibilidade extrema, mas de uma forma doce que faz parecer que alguém nos está a cantar a história ao ouvido.

 

Este foi o sexto livro de Ondjaki que me passou pelas mãos e, tal como os restantes, deixou saudades assim que virei a última página. Saudades do Espuma-DoMar o matemático maluco que tinha um jacaré no quintal, do Pinduca, o Pi ou 3,14 como era conhecido no bairro, do narrador sem nome e da sua paixão por filmes de cowboys, da AvóAgnette e da sua característica peculiar, do Camarada VendedorDeGasolina que podia dormir muito porque a bomba nunca tinha gasolina, da Avó Catarina que só aparecia quando queria e que não deixava nada por dizer, do soviético camarada Botardov que tinha esse nome "por causa do modo como ele dizia, quase a falar soviético, "bótard", mesmo que fosse de manhã cedo ou à noite já bem noitinha”.

 

Esta é a história da construção do Mausoléu na PraiaDoBispo, o monumento destinado a albergar o corpo do falecido presidente Agostinho Neto, mas é principalmente, a história daquele lugar, das pessoas que lá habitam, adultos e crianças que partilham o desejo de continuar a correr pela PraiaDoBispo. 

A Avó me mandou um beijo voado, beijado na mão dela a sorrir, acho que a dança lhe fez bem, a cara dela parecia mais calma e até caminhava melhor. Era o milagre da música, como dizia o Espuma-DoMar: - Os meus pés conhecem a verdade que o meu coração sente quando os meus ouvidos sorriem. A música é o milagre que os comunistas já autorizaram de acontecer, ahahah. A bailar, compañeros.

 

Tenho-me deliciado a ler os livros de Ondjaki, não há dúvida de que é um dos mais brilhantes escritores lusófonos da actualidade. Para os curiosos que desconhecem o trabalho do mágico Ondjaki, sugiro que experimentem Uma Escuridão Bonita, vão adorar!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

 

20
Jul16

CITAÇÃO | Ondjaki e as despedidas

Eu acho que nunca cheguei a dizer a ninguém, talvez só mesmo à Romina, mas na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber. Não gosto mesmo de despedidas.

 

em Os Da Minha Rua de Ondjaki

04
Jul16

OPINIÃO | Os Da Minha Rua

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Título: Os da minha rua

Autor: Ondjaki

Ano de publicação: 2007

Editora: Caminho

 

Quem nunca leu Ondjaki ou qualquer outro escritor lusófono africano não imagina o que está a perder. Escrevo isto as vezes que forem necessárias até que pelo menos um de vós me diga que experimentou. 

 

Este é o meu quinto livro do autor e já tenho o sexto à espera na estante. Para aqueles que não conhecem o Ondjaki deixem-me que o apresente: 

Ondjaki, ou Ndalu de Almeida, nasceu em Angola em 1977, tem vários livros publicados, ganhou vários prémios, mas melhor do que escrever sobre as suas origens e sobre a sua vida é mostrar-vos o que o torna especial. Ondjaki é aquele escritor que diz que "a poesia não é a chuva, é o barulho da chuva" e que "toda a estrela é luz bonita que nunca soube descansar de alegrar a noite" e diz ainda que "a despedida tem cheiro de amizade cinzenta".

 

Os da minha rua é um livro de memórias de infância, daquela que foi a infância de Ondjaki e daqueles que com ele se cruzaram naqueles tempos em Luanda. O livro acaba por ser um hino à infância, à amizade, à família, à descoberta, aos risos e às gargalhadas. Mas é também um livro que nos ajuda a relativizar as pequenas dificuldades da vida e que nos lembra dos tempos em que sorrir era tão mais fácil. 

 

O livro está organizado em pequenos textos/contos, em cada conto a infância é descrita com recurso à memória de Ondjaki e aos sentidos, principalmente os cheiros e sons. Adoro a forma como o autor nos transporta para um espaço assim tão completo.

 

"O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança."

 

A escrita essa é pura, simples e tão envolvente. Podia achar-se que escrever sobre a infância é por si só suficiente para envolver o leitor, mas parece-me que o sucesso não é garantido. É preciso que a escrita nos aconchegue tal como a infância deve ser aconchegante, infelizmente mais para uns do que para outros, e é preciso que a escrita seja suficientemente eficaz para que o leitor seja transportado à sua própria infância. Adivinhem lá, este livro tem isso tudo e muito mais!

 

"A infância é uma coisa assim bonita: caímos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos."

 

Um livro de arrepiar que nos toca no coração, tal como todos os outros livros de Ondjaki tocam.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

13
Jun16

OPINIÃO | Os Transparentes

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Título: Os Transparentes

Autor: Ondjaki

Ano de publicação: 2012

Editora: Editorial Caminho

 

Aquele jeito de transformar prosa em poesia que caracteriza a escrita de Ondjaki deixa-me com um sorriso nos lábios e enche-me a alma. Assim foi com Uma Escuridão Bonita, seguiu-se Bom Dia Camaradasjá em modo romance, e o mesmo aconteceu com a obra de contos E Se Amanhã o Medo.

 

Os Transparentes foi o primeiro romance "a sério" que li do autor, é uma obra completamente diferente das outras que já li, mais expressiva e mais crítica em relação àquela que é a Angola dos dias de hoje. Esta obra é um retrato de Luanda e do seu povo característico. Toda a agitação febril, a autenticidade do povo africano, os esquemas e a corrupção são aqui caracterizados através da escrita poética e inspiradora de Ondjaki.

 

A obra tem como pano de fundo o prédio do LargoDaMaianga em Luanda. O prédio é o lugar de encontros e desencontros e é lá que tudo acontece. As personagens desta obra são muito ricas e únicas, algumas delas são verdadeiros tesouros. Não existe uma personagem principal, existem antes várias personagens e várias histórias, igualmente relevantes: um homem que inicia um processo de transparência física, um cientista honesto que é desacreditado por ter informações inconvenientes, um carteiro que queria simplesmente ter um veículo que facilitasse a vida às suas pernas cansadas, uma polícia que só funciona através de suborno e um governo corrupto.

 

“Odonato já não tinha força para desenhar nos lábios um gesto mínimo de espanto ou o que fosse um vulgar sorriso, a temperatura chegava-lhe à alma, os olhos ardiam por dentro chorar afinal não tinha que ver com lágrimas, antes era o metamorfosear de movimentos internos, a alma tinha paredes - texturas porosas que vozes e memórias podiam alterar."

 

A escrita de Ondjaki é deliciosa, cheia de expressões locais, caricata em alguns momentos, mas também comovente, um estilo que faz lembrar Mia Couto e José Saramago. Não me farto de recomendar as obras de Ondjaki, faz tão bem à alma e fica bem em qualquer estante!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

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