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Claro como a água

Claro como a água

26
Set17

OPINIÃO | A Elegância do Ouriço

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Tí­tulo: A Elegância do Ouriço

Autor: Muriel Barbery

Ano da primeira publicação: 2006

Editora: Editorial Presença

 

Andava eu em busca de leituras mais soft quando me deparei com a premissa d' A Elegância do Ouriço, nada mais nada menos do que um prédio num bairro em Paris que emprega uma porteira autodidata e onde habita uma jovem sobre-dotada. 

O primeiro terço do livro não foi nada fácil de assimilar, principalmente pela alternância entre narradores e pelos capítulos de divagação, que apareciam sem propósito aparente. Ultrapassada esta dificuldadezinha, A Elegância do Ouriço revelou ser pouco ou nada soft, mas antes uma história encantadora.

Como descrever esse momento de grande alegria? (...) É um fora-do-tempo dentro do tempo... Quando senti pela primeira vez esse abandono delicioso que só é possível a dois? A quietude que sentimos quando estamos sozinhos, essa certeza sobre nós mesmos na serenidade da solidão, não são nada em comparação com o deixar-se levar, deixar-se ir e deixar falar que se vive com o outro, em companhia cúmplice... Quando senti pela primeira vez esse relaxamento feliz em presença de um homem? Hoje, é esta a primeira vez.

 

Ao longo das páginas do livro somos levados a conhecer a vivência daquele prédio em Paris e o dia-a-dia dos seus moradores ricos e snobs. Inicialmente é nos apresentada Renée, uma mulher de 54 anos, a porteira do prédio. Renée é uma pessoa humilde mas bastante inteligente e auto-didata, carrega consigo, debaixo do braço e em segredo, algumas das maiores obras literárias. Renée revelou-se uma personagem tão interessante de tal forma que me entristece não poder trazê-la do mundo imaginário para o mundo real.

Logo de seguida, conhecemos Paloma, uma jovem de 12 anos, com uma inteligência muito acima da média e que, por conhecer o destino vago que a espera, decide suicidar-se no dia em que completar 13 anos. Renée e Paloma têm em comum uma característica comportamental: ambas tentam esconder a sua inteligência e olhar crítico sobre o mundo que as rodeia.

 

Como se Renée e Paloma não fossem personagens suficientemente interessantes para deixarem o leitor preso à história, algures a meio do livro o prédio ganha um novo morador, um senhor japonês, também ele riquíssimo, de nome Ozu. É Ozu quem vai mudar o destino de Renée e Paloma.

Já não sei muito bem o que pensar. Por um instante, acreditei que tinha encontrado a minha vocação; acreditei entender que, para me cuidar, precisava de cuidar dos outros, quer dizer, dos outros "cuidáveis", os que podem ser salvos, em vez de ficar às voltas porque não posso salvar os outros. Então, será que deveria ser médica? Ou escritora? É um pouco parecido, não é?

 

A leitura nem sempre é fluída, a alternância de narradores e contextos dificulta a assimilação dos acontecimentos, Ainda assim, as personagens peculiares e as passagens encantadores fazem valer todos os minutos que passei a ler este livro. Uma leitura não tão soft assim, sobre a beleza e elegância interior, com um final arrebatador. Recomendo!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

15
Set17

OPINIÃO | A Educação de Eleanor

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Tí­tulo: A Educação de Eleanor

Autor: Gail Honeyman

Ano da primeira publicação: 2017

Editora: Porto Editora

 

Quando comprei o meu exemplar de A Educação de Eleanor procurava algo mais leve e na realidade este livro pode ser bastante leve se o leitor assim o entender, mas pode antes ser algo mais perto de literatura se formos um pouco mais fundo.

 

Eleanor Oliphant tem uma vida completamente normal, ou pelo menos assim pensa. Eleanor tem 30 anos, vive sozinha e não tem amigos, divide o seu tempo entre um emprego das 9 às 5 num escritório e pizza fria e vodca ao fim de semana. Acredita estar bem assim.

Tenho pena das pessoas bonitas. A beleza, a partir do momento em que a possuímos, está já a dissipar-se, efémera. Deve ser difícil ter constantemente de provar que somos mais do que isso, querer que as pessoas vejam para além da superfície, ser amado por quem somos e não por um corpo deslumbrante, olhos brilhantes ou cabelo denso e luzidio. 

A autora Gail Honeyman construiu uma personagem muito peculiar, a começar pelo seu nome: Eleanor Oliphant. Diria que é quase impossível lê-lo sem que salta à vista a palavra inglesa Elephant (Eleanor Oliphant). É isso mesmo que Eleanor é, um elefante no meio da sala, assunto de todas as conversas, ainda que preferisse passar despercebida e que não a chateassem.

 

Embora a autora nos revele bastante sobre a personalidade de Eleanor, principalmente na primeira metade do livro, até o leitor mais distraído percebe que Eleanor está envolta em mistério. São dadas indicações que nos levam a crer que Eleanor não terá tido uma infância fácil, tem até marcas físicas na cara que indicam isso mesmo, mas ninguém ousa questioná-la sobre a origem dessas marcas.

Eis o que senti: o peso quente das mãos dele nas minhas; a sinceridade do seu sorriso; o calor suave de algo a abrir-se, como as flores se abrem de manhã ao ver o Sol. Sabia o que estava a acontecer. Era o pedacinho não cicatrizado do meu coração. Era grande o suficiente para deixar entrar um bocadinho de afeto. Ainda havia um espacinho minúsculo. 

A Educação de Eleanor está dividido em duas partes: "Dias Bons" e "Dias Maus", a antítese que caracteriza toda a obra, não fosse ela um misto de tristeza e comédia, uma leitura leve ou algo mais perto de "literatura a sério".

 

Classificação no Goodreads: 4/5

08
Set17

As 10 melhores sensações livrólicas que já experimentei

 

Leitores. Há de todos os tipos: quem goste de cheirar e acariciar os livros, quem os rabisque e dobre páginas, quem não se importe se a capa é bonita ou se o livro está intacto.

Há um par de dias, vi um senhor no metro a ler um dos livros mais marcantes que já li. Se tivesse tolerado o impulso teria ido cumprimentar o senhor e ter-lhe-ia perguntado se estava a gostar do livro. Felizmente a minha sensatez ainda consegue controlar grande parte dos meus atos...

Foi essa cena no metro que despoletou uma auto-reflexão sobre a relação com os livros. Se tivesse de escolher uma palavra para tentar caracterizar esta minha relação com os livros seria um nome: SENSAÇÕES.

Quando tento enumerar algumas das melhores sensações livrólicas que já experimentei, o resultado é este: 

 

Sensação 1: Abstrair-me totalmente do mundo enquanto estou a ler, a ponto de ter de levantar os olhos do livro para perceber onde estou.

 

Sensação 2: Quando alguém me pergunta com ar surpreso: "Como é que sabes isso?" e eu respondo "Li num livro".

 

Sensação 3: "Espiar" alguém que está a ler um livro em público.

 

Sensação 4: Quando um amigo percebe que não consegue recomendar-me um livro porque já li bastantes.

 

Sensação 5: Entrar numa biblioteca e passar a mão pelas lombadas dos livros.

 

Sensação 6: Todas as sensações fantásticas ao admirar as marcas de um livro em segunda-mão.

 

Sensação 7: Identificar-me com uma personagem literária.

 

Sensação 8: Quando oiço: "Adorei o livro que me recomendaste".

 

Sensação 9: A empatia ao ver um desconhecido ler um livro de que gosto.

 

Sensação 10: Ir a feiras de livros, nem que seja porque tudo o que vejo no horizonte são livros, livros e mais livros.

 

Mais alguém com sensações livrólicas por aí?

04
Set17

OPINIÃO | O Retrato de Dorian Gray

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Tí­tulo: O Retrato de Dorian Gray

Autor: Oscar Wilde

Ano da primeira publicação: 1891

Editora: Relógio d'Água

 

Não sou crítica, não tenho qualquer espécie de formação em literatura, arrisco dizer que percebo tanto de literatura como de culinária, e do segundo não pesco nada. Se há coisa que tenho percebido é que me é muito difícil escrever sobre estes livros, mais do que sobre os outros. E o que são estes livros, perguntaram vocês? São livros maiores, que todos os leitores conhecem, porque já leram ou ouviram falar, cuja grandeza é inquestionável. Tenho tanta dificuldade em encontrar as palavras adequadas e demasiado receio de revelar mais do que me pedem, que acabo por praticamente não falar sobre o livro.

 

Antes de tentar deixem-me contar-vos a minha relação com O Retrato de Dorian Gray, foi-me oferecido quando ainda era uma adolescente. Tentei lê-lo na altura. Não tendo ido além da página 40, devolvi-o à estante e decidi que voltaria a tentar uns anos mais tarde. Passaram 12 anos quando senti que estava pronta para experimentar, 12 anos depois O Retrato de Dorian Gray não é mais o bicho papão da minha estante, é sim, um dos meus clássicos preferidos.

 

Dorian Gray é nos apresentado como um jovem doce e ingénuo, possuidor de uma beleza invulgar. A personagem Dorian Gray sofre transformações constantes ao longo do livro, em grande parte derivado da influência daqueles que o rodeiam. Para Dorian Gray apenas a beleza e a juventude interessam.

Basal é o artista que imortaliza num retrato as duas características que Dorian mais valoriza, tornando-se co-responsável pela desgraça de Dorian.

A vida é uma questão de nervos, fibras e células lentamente construídas nas quais o pensamento se esconde e a paixão tem os seus sonhos.

É sabido que Oscar Wilde foi um influente escritor e crítico social pelo que seria de prever a presença de uma forte componente crítica nas suas obras. Em O Retrato de Dorian Gray, o autor presenteia o leitor com diversas reflexões sobre a sociedade inglesa do século XIX, particularmente a sobrevalorização da aparência e a consequente futilidade e hipocrisia da sociedade.

 

Para mim, a complexidade das personagens (a de Dorian em particular) são o ponto forte desta obra e motivo mais do que suficiente para que O Retrato de Dorian Gray tenha entrado para o topo da minha lista dos melhores clássicos de sempre! Só me arrependo de não o ter lido mais cedo...

 

Classificação no Goodreads: 5/5 

01
Set17

Um Verão inteiro

Nunca tinha estado sem escrever por um período tão longo e por isso agradeço aos resistentes pelas mensagens de motivação.

 

Já perdi a conta ao número de vezes que vos falei sobre a necessidade que tenho de quebrar a rotina para não deixar que pequenos prazeres, como escrever no blog ou ler um livro, se transformem em obrigações. Tal como já dizia o Padre António Vieira, "Não há coisa tão preciosa, e tão útil, que continuada não enfade". A solução para esta espécie de angústia passa por “desligar” de algumas coisas. Infelizmente ainda não consigo prever estas pancadas pelo que não há aviso prévio possível.

 

Três meses é demasiado tempo, ainda mais porque, embora não tenha lido com a frequência habitual, não li assim tão pouco. Vamos lá tentar resumir a coisa.

 

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Os três primeiros livros ainda foram lidos antes de desaparecer do planeta, o último é um livro de contos que comecei a ler algures em Maio e terminei o mês passado. 

Dom Casmurro foi a minha estreia com Machado de Assis, foi a querida Bárbara que sugeriu o autor e este livro em particular. Foram 4 estrelas, a caminho das 5, de uma escrita hilariante e um autor para ler mais e mais e mais!

O Retrato de Dorian Gray, o predileto dos leitores de Oscar Wilde, arrebatou as 5 estrelas tornando-se um dos melhores clássicos (ou livros) de sempre!

O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell foi um livro diferente de tudo o que já li. Citando António Lobo Antunes: "Parabéns ao Editor que decidiu publicá-lo (o livro) e parabéns a ti (leitor) por o teres comprado. Seja qual for o preço que por ele deste, é uma pechincha comparado com o que vais receber". São 4 estrelas.

Sonhos Azuis pelas Esquinas de Ondjaki. Sendo eu uma mega-fã do autor, entristece-me ter de escrever que este ficou aquém das minhas expectativas. Não encontrei nenhum conto que me enchesse o coração, a maior parte dos contos foram medíocres e por isso, para mim são 3 estrelas.

 

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Gut (em inglês) ou A Vida Secreta dos Intestinos (em português) de Giulia Enders foram 4*. O melhor livro que já li sobre o tema: técnico sempre que necessário, prático do início ao fim. Adorei o sentido do humor da autora.

 

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Idiot Brain (título original) ou O Cérebro Idiota - Uma Viagem Através dos Mistérios do Nosso Cérebro de Dean Burnett levou 2*. As primeiras páginas estavam a ser interessantes mas foi tornando-se cada vez mais maçador.

 

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Yoga for Pain Relief de Lee Albert levou 4*. Procurei um livro sobre yoga após ter lido um artigo sobre o potencial do yoga enquanto ferramenta para tratamento e alívio de dores musculares (principalmente posturais). Não percebendo nada do assunto, este livro revelou-se o guia ideal ao introduzir inúmeros conceitos e procedimento básicos à atividade, bem como imagens exemplificativas das posturas descritas. Julgo que o livro não foi traduzido para português, mas a versão inglesa parece-me acessível.

 

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Grain Brain (título original) ou Cérebro de Farinha de David Perlmutter. O autor apresenta teorias (extremistas) interessantes, ainda que por vezes a sua fundamentação seja escassa. Este foi mais "folheado" do que propriamente lido e por isso são 2 estrelas.

 

  

Estou atualmente a ler: 

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O Homem da Areia de Lars Kepler. O problema de ler livros muito bons e extraordinariamente bem escritos é que, quando o leitor pretende ler algo mais leve, nada o satisfaz! Dentro do género, estes são dos autores que mais aprecio, ainda assim este não me está a agradar, ando constantemente a tropeçar na tradução e confesso que as personagens são demasiado cliché. Ando a carregar 500 páginas e ainda só li o primeiro terço do livro.

Economia: Tudo o que precisa de saber de Alfred Mill. Introduz vários temas, dos mais elementares aos mais complexos tentando sempre explorar o lado prático. Muito interessante, ainda que alguns dos temas sejam abordados de forma muito superficial.

Scrum de Jeff Sutherland. Acredito que dificilmente compraria este livro se o visse à venda, mas, por ter sido oferecido por um colega de trabalho, acabei por lhe pegar. Li aproximadamente metade do livro, o suficiente para perceber (ainda que com pouco detalhe) como funciona a ferramenta scrum. Até eu que vibro com planeamento e organização estou fã do método!

 

Outros factos relevantes sobre os últimos três meses:

- Estou gradualmente a render-me ao acordo ortográfico. O facto de ter de escrever segundo o acordo ortográfico no trabalho, não ajuda a levar para a frente a minha indignação e recusa. A prova disso é que escrevi este post segundo o acordo ortográfico sem que me tenha apercebido. Ainda assim, não sei se este é o momento da mudança ou se vou conseguir continuar a luta, prevejo alguma incoerência nos próximos posts.

- Continuo a luta com a Anna Karenina. Aquela versão que comprei na Feira do Livro não é prática na medida em que as letras são muito pequenas. Sim, eu sei que devia ter considerado esse aspeto antes de comprar o livro mas não aconteceu. A solução foi comprar o ebook (por €2!).

- Fui a uma feira de livros usados e não resisti a mais umas boas compras. Trouxe comigo a Rebecca da Daphne du Maurier por €2, o Todos os Nomes do José Saramago por €2, A Trança de Inês da Rosa Lobato de Faria por €3.

- Em agosto fiz 26 anos e, uma vez mais, não recebi nenhum livro como presente.

 

E por fim:

Muito obrigada pela persistência. Prometo voltar à regularidade muito em breve.

 

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