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Claro como a água

Claro como a água

05
Dez16

Calendário do Advento | 5 de Dezembro de 2016

A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.

 

em História de um muro branco e de uma neve preta, um conto de Natal de José Saramago

14
Fev16

OPINIÃO | As Intermitências da Morte

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 Título: As Intermitências da Morte

Autor: José Saramago

Ano de Publicação: 2005

Editora: Porto Editora

 

Ninguém escreve assim, a escrita de Saramago é genial e é motivo mais do que suficiente para ler as suas obras. O tema desta obra é interessante, a narrativa começa com "No dia seguinte ninguém morreu" e a partir daí o autor desenvolve todas as consequências (mesmo as mais inimagináveis) decorrentes da suposição de que a morte resolveu "tirar férias".

 

"O que aí nos vem em cima é o pior dos pesadelos que alguma vez um ser humano pôde haver sonhado, nem mesmo nas escuras cavernas, quando tudo era terror e tremor, se terá visto semelhante coisa (...) se quer que lhe falemos com franqueza, de coração nas mãos, antes a morte, senhor primeiro-ministro, antes a morte que tal sorte."

 

As famílias não sabem o que fazer aos seus familiares que se encontravam à beira da morte, as agências funerárias e as seguradoras temem ir à falência, ainda que por motivos contrários, os hospitais e os lares não têm mais recursos para receber os eternos clientes e até a igreja teme a sua sustentabilidade alegando que sem morte não há ressurreição.

 

Um outro tema abordado por Saramago e que também deriva da "inexistência da morte" é a velhice. Fiquei particularmente comovida com uma passagem do livro em que um homem com alguma idade e incapacitado se vê obrigado a ir viver com o filho, a nora e o neto. O filho ordena ao homem que vá comer para a soleira da porta para não sujar a casa. Ao ver a forma como o pai trata o avô, o neto resolve construir uma tigela "para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando o mandarem comer na soleira da porta, como fizeram ao avô", as palavras do miúdo foram santas aos ouvidos do pai. Quando chegou a hora da ceia "por suas próprias mãos o ajudou a sentar-se na cadeira, por suas próprias mãos lhe levou a colher à boca, por suas próprias mãos lhe limpou suavemente o queixo, porque ainda o podia fazer e o seu pai querido já não."

 

Já a história leva algum avanço quando Saramago nos apresenta a morte. Propositadamente não vou revelar muito sobre esta personagem, quero apenas escrever que a forma como Saramago descreve o comportamento e toda a ação em torno da morte é soberba! Aqui fica uma pequena amostra:

 

"O homem deitou água para um copo e bebeu. O cão apareceu nesta altura, matou a sede no bebedouro ao lado da porta que dá para a porta do quintal e depois levantou a cabeça para o dono. Queres sair, claro, disse o violoncelista. Abriu a porta e esperou que o animal voltasse. No copo tinha ficado um pouco de água. A morte olhou-a, fez um esforço para imaginar o que seria ter sede, mas não o conseguiu. (...) O homem tapou-se até o pescoço, tossiu duas vezes e daí a pouco entrou no sono. Sentada no seu canto, a morte olhava. Muito mais tarde, o cão levantou-se do tapete e subiu para o sofá. Pela primeira vez na sua vida a morte soube o que era ter um cão no seu regaço."

 

Foi bom ler Saramago, já tinha saudades da sua escrita e da ironia que transporta para as suas obras. É uma história com passagens que nos levam à reflexão, o meu exemplar está cheio de marcações 

Como diz José Saramago: "De deus e da morte não se têm contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas." mas que vale muito a pena!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

 

11
Fev16

CITAÇÃO | José Saramago

Quantos anos tenho?

Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.

Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.

Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por se consumir no fogo de uma paixão desejada.
E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia.

Quantos anos tenho?

Não preciso de um número para marcar, pois os meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho ao ver as minhas ilusões despedaçadas…

Valem muito mais que isso

O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?!

O que importa é a idade que sinto.

Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos.

Para seguir sem temor pela trilha, pois levo comigo a experiência adquirida e a força dos meus anseios.

Quantos anos tenho? Isso a quem importa?

Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto.

 

O Dom de ser Mulher, por José Saramago

 

Visto aqui.

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