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Claro como a água

Claro como a água

22
Abr16

OPINIÃO | Os Enamoramentos

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  Título: Os Enamoramentos

Autor: Javier Marías

Ano da primeira publicação: 2011

Editora: Alfaguara

 

O meu primeiro contacto com o Javier Marías foi com a obra Coração tão Branco. Gostei muito da escrita, decidi que tinha de ler mais e como tinha Os Enamoramentos na estante, foi o que se seguiu. Esta edição limitada da Alfaguara foi-me oferecida recentemente, é uma edição de capa dura e com dimensões semelhantes às de um livro de bolso, muito jeitosinha!

 

Não me apaixonei por Os Enamoramentos como havia acontecido com Coração tão Branco mas ainda assim gostei bastante desta leitura e agora posso dizer que não foi sorte, Javier Marías é mesmo um grande escritor! O que mais gosto na sua escrita é a forma como o autor aborda assuntos que à partida não teriam grande importância, pequenas coisas sobre as quais ninguém escreve. Javier Marías tem a capacidade de escrever páginas e páginas sobre tudo e sobre nada, tendo preferência em dissertar sobre a morte e sobre o amor/paixão, e desta forma proporcionar ao leitor muitos momentos de reflexão.

Identifico muitas semelhanças entre estas duas obras do autor, desde a referência e dissertação acerca da morte e do sentimento de perda, bem com a alusão a Macbeth de Shakespeare e aos Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas.

 

 

18
Abr16

CITAÇÃO | Javier Marías

Contar deforma, contar os factos deforma os factos, e deturpa-os, e quase os nega, tudo o que se conta para a ser irreal e aproximativo, não obstante seja verídico, a verdade não depende de que as coisas tivessem "sido" ou sucedido, mas de que permaneçam ocultas e desconhecidas ou não sejam contadas, logo que se relatam, ou se manifestam, ou mostram, mesmo que seja no que mais real parece, na televisão ou no jornal, naquilo a que se chama realidade, ou a vida, ou inclusive a vida real, passam a fazer parta da analogia e do símbolo, e já não são factos, mas transformam-se em reconhecimento. A verdade nunca resplandece, como diz a fórmula, porque a única verdade é a que não se conhece nem se transmite, a que não se traduz por palavras ou imagens, a encoberta e não averiguada, e talvez por isso se conte tanto ou se conte tudo, para que nunca tenha acontecido nada uma vez contado.

 

em Coração tão Branco de Javier Marías

12
Abr16

OPINIÃO | Coração tão Branco

  :

 

Título: Coração tão Branco

Autor: Javier Marías

Ano de publicação: 2013

Editora: Alfaguara

 

Coração tão Branco foi a minha estreia com Javier Marías. Começa assim:

 

"Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados. Quando se ouviu a detonação, uns cinco minutos depois da menina ter abandonado a mesa, o pai não se levantou de imediato, mas ficou alguns segundos paralisado com a boca cheia, sem se atrever a mastigar nem a engolir nem, menos ainda, a devolver o bocado ao prato; quando por fim se levantou e correu para o banheiro, os que o seguiram viram como, enquanto descobria o corpo ensanguentado da filha e levava as mãos à cabeça, ia passando o bocado de carne de um lado ao outro da boca, sem saber ainda o que fazer com ele."

 

Javier María brinca com as palavras e constrói um puzzle em forma de livro. Acredito que qualquer frase escrita por Javier se torne agradável aos olhos dos seus leitores, ainda que possa soar uma barbaridade (pelo menos comigo foi assim). Não sei se é característico do autor ou da obra mas encontrei em Coração tão Branco  uma sensibilidade inesperada da qual foi impossível sair indiferente.

 

Embora o vocabulário utilizado por Javier seja simples, a sua escrita não é nada trivial, utiliza constantemente frases e parágrafos intermináveis, cheios de detalhes e muitos momentos de divagação. Parece-me que este foi o principal entrave a uma leitura mais fluida e constante. 

  

Toda a obra gira em torno de temas como o casamento, a importância dos segredos e o poder das palavras (as ditas e as desejadas). Aqui fica um excerto que engloba todas essas temáticas:

 

"Podemos calar-nos e calar-nos para sempre, mas convencemo-nos de que amamos mais porque contamos segredos, tantas vezes contar parece uma prenda que se dá, a maior prenda que se pode dar, a maior prova de lealdade, de amor e de entrega. E esforçamo-nos por contar. De repente, não nos contentamos em dizer palavras ardentes que se esgotam rapidamente ou se tornam repetitivas. E tão-pouco se contenta quem as escuta."

 

Nesta história temos duas personagens importantes: Teresa, a rapariga do primeiro parágrafo, que se mata com um tiro no coração; e Juan, o narrador que nos vai contando a sua história e os seus receios de jovem recém-casado. Não quero alargar-me neste campo, acho no entanto que é importante não iludir ninguém por isso aqui vai: não achei a história particularmente interessante, nesse aspecto esperava um bocadinho mais. Talvez as minhas expectativas fossem demasiado elevadas e por isso me tenha decepcionado um pouco com o rumo da história, ainda assim foi uma leitura espectacular!

 

Este não é um livro para todo o tipo de leitores muito menos é um livro sobre o qual devemos escrever, é sim um livro para se ler com calma e para se desfrutar cada palavra do início ao fim.

 

Sinto-me mais rica depois de ter lido Javier Marías (e feliz por ter Os Enamoramentos na estante). Este pode bem ser a revelação de 2016 no meu mundo literário. Leiam!

 

Classificação no Goodreads: 5/5

05
Abr16

CITAÇÃO | Javier Marías

Escutar é o mais perigoso, é saber, é ser inteirado e estar a par, os ouvidos não têm pálpebras que se possam fechar instintivamente ao que é dito, não se podem resguardar do que se pressente que se vai escutar, sempre é tarde demais.

 

em Coração tão Branco, de Javier Marías

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