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Claro como a água

Claro como a água

11
Dez16

Calendário do Advento | 11 de Dezembro de 2016

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

 

Dia de Natal de Fernando Pessoa

01
Dez16

Calendário do Advento | 1 de Dezembro de 2016

Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

 

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

 

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

 

 

Natal...na província neva de Fernando Pessoa

17
Jun16

CITAÇÃO | Fernando Pessoa

Mais vale a sombra de uma árvore do que o conhecimento da verdade, porque a sombra da árvore é verdadeira enquanto dura, e o conhecimento da verdade é falso no próprio conhecimento. Mais vale, para um justo entendimento, o verdor das folhas que um grande pensamento, pois o verdor das folhas, podeis mostrá-lo aos outros, e nunca podereis mostrar aos outros um grande pensamento. Nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passamos a vida entre o silêncio de quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, e em torno disto, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino.

 

em O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Filosóficos de Fernando Pessoa

15
Jun16

OPINIÃO | O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Filosóficos

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Título: O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Filosóficos

Autor: Fernando Pessoa

Ano de publicação: 2014

Editora: Luso Livros

 

Esta obra é composta por vários contos da autoria de Fernando Pessoa, o conto principal O Banqueiro Anarquista ocupa cerca de metade do livro, seguindo-se outros contos filosóficos: Na Farmácia do EvaristoNo Jardim de Epíteto, Um grande português, A Pintura do Automóvel, Na Floresta do Alheamento e A Hora do Diabo.

 

Estes contos foram encontrados na casa de Fernando Pessoa alguns dias após a sua morte, em Dezembro de 1935, juntamente com outros trabalhos: poemas, diários, peças e projectos literários inacabados. Desta descoberta já foram publicados vários trabalhos sendo O Livro do Desassossego o mais conhecido e o mais importante.

 

O conto O Banqueiro Anarquista é destacado no título do livro por ser o conto mais extenso e de maior relevância desta compilação de contos. Como pode um Banqueiro, o símbolo do capitalismo, ser um anarquista? Não é nenhum trocadilho, a genialidade de Pessoa consegue justificar esta aparente contradição através de uma cuidada e profunda fundamentação. Concordando ou não com a tese de Pessoa, há que reconhecer que esta obra transforma qualquer leitor num filósofo, quanto mais não seja por nos fazer pensar. Este banqueiro, revoltado com as desigualdades sociais, diz-nos que "a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais". As ideias deste banqueiro para conseguir "libertar-se da sociedade" são no mínimo originais, mas de Pessoa não se espera menos do que a genialidade.

 

Os restantes contos são bastante curtos, Pessoa oferece-nos de tudo um pouco: contos filosóficos, políticos, alguns cómicos e até um monólogo. Gostei bastante d' O Banqueiro Anarquista, é talvez o meu preferido dos contos aqui apresentados. Outro de que gostei bastante foi o conto Na Floresta do Alheamento, um monólogo existencial sobre a sensação e a razão, protagonizado por um homem que se vê perdido numa floresta.

 

Fica a dica para os interessados, podem descarregar a versão digital desta e de outras obras portuguesas em https://www.luso-livros.net/ (é legal e gratuito). Já não há desculpa para não ler os clássicos portugueses.

 

Classificação no Goodreads: 3/5 

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