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Claro como a água

Claro como a água

12
Set16

OPINIÃO | O Original de Laura (o livro proibido de Nabokov)

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Título: O Original de Laura

Autor: Vladimir Nabokov

Ano de publicação: 2009

Editora: Teorema 

 

O Original de Laura é o romance inacabado de Vladimir Nabokov, foi escrito no final dos anos 70 quando o autor já estava muito frágil e passava os seus dias no hospital.

 

Deparei-me com este exemplar numa livraria à beira-mar, já publicitei aqui no blog que adoro a escrita de Nabokov, mas foi principalmente a capa que me atraiu. As palavras da capa foram escritas por Nabokov e anexadas ao manuscrito, nesta edição são traduzidas para português como: apagar, erradicar, suprimir, anular, delir, limpar, obliterar.

 

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Quando comecei a folhear o livro e percebi que se tratava de um romance inacabado, o último escrito por Nabokov e ainda por cima que era uma leitura "proibida", não consegui resistir à curiosidade!

 

Também estão curiosos? Ainda não? Atentem no percurso deste manuscrito:

Enquanto escrevia o romance, o autor deixou instruções à mulher, Véra, para que destruísse o manuscrito de Laura caso não conseguisse terminá-lo. Após a morte do autor em 1977, Véra decidiu que o manuscrito seria guardado num banco Suíço e por lá ficou, durante 30 anos. Em 2009, após a morte de Véra e muitas controvérsias e acusações, o filho do casal, Dimitri Nabokov, autorizou a divulgação dos textos e a publicação do romance. O Original de Laura é exactamente o que o título sugere, é a versão original de Laura, o último romance de Vladimir Nabokov.

 

Esta edição é maravilhosa. Em cada página podemos consultar as fichas originais (escritas pela mão de Nabokov) em inglês, seguidas da tradução para português. É engraçado reparar nas notas do autor, correcções e erros ortográficos (o autor escreveu em inglês e não na sua língua materna). Deixo aqui algumas imagens:

 

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O romance aborda temas como a morte, o adultério e a indiferença, e gira em torno de uma personagem feminina: Flora. Não esperem páginas cheias, parágrafos sem fim, nem texto com sentido, cada página tem cerca de 10 linhas e o texto não é compacto mas sim composto por fragmentos. Vejo estas fichas mais como poemas do que um romance, há espaço para muita divagação e até Hubert H. Hubert, personagem de Lolita, é referido nestas páginas

 

Foi Dimitri quem organizou a obra mantendo a ordem e estrutura definida por Vladimir Nabokov, e talvez por isso tenha sentido falta de alguma clareza e organização, algumas passagens são bastante confusas. Ao longo destas notas encontrei algumas evidências do "declínio" de Nabokov, ainda assim é inquestionável que Nabokov foi um grande escritor e é sempre fantástico ler qualquer texto que tenha escrito.

 

Não é uma leitura apreciada por qualquer leitor mas os fãs de Nabokov vão certamente deliciar-se com estes fragmentos.

 

Classificação no Goodreads: 3/5

21
Mai16

OPINIÃO | A Verdadeira Vida de Sebastian Knight

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Título: A Verdadeira Vida de Sebastian Knight

Autor: Vladimir Nabokov

Ano de publicação: 2013

Editora: Relógio d'Água

 

O meu primeiro contacto com Nabokov foi com a sua obra mais popular (e controversa): Lolita. Lembro-me que fiquei algo que transtornada e confusa ao ler Lolita, não percebia se tinha gostado ou não, precisei mesmo de algum tempo para pôr as ideias em ordem. A conclusão que retirei foi esta: se Nabokov consegue causar tal sentimento no leitor então será certamente um grande escritor, e isso deve-se principalmente à sua escrita (muito delicada e bem estruturada). O passo seguinte foi procurar outra obra de Nabokov, dando preferência a uma cuja temática fosse mais leve.

 

A Verdadeira Vida de Sebastian Knight veio confirmar que nem eu, nem a maioria dos outros leitores, estávamos enganados, Nabokov é mesmo um grande escritor e a sua especialidade é deixar os leitores indignados e felizes! Ainda que Lolita tenha sido publicado quase 15 anos após A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, não existe uma discrepância evidente entre as duas obras. Mantém-se o vocabulário rico e acessível, o nível de fluidez da leitura e as maravilhosas longas descrições (que, estranhamente, não são nada maçadoras).

 

Nesta obra a temática não é controversa nem tão sensível, tal como o nome sugere o autor conta-nos a vida de Sebastian, um escritor famoso cuja vida está envolta em mistério. A forma como Nabokov nos conta a história de Sebastian é por si só fascinante. Logo na primeira página sabemos que Sebastian está morto, e portanto não pode ser ele a contar-nos a sua história, essa tarefa cabe ao meio-irmão de Sebastian, cujo nome desconhecemos. 

 

Fiquei com a sensação de que esta obra é quase auto-biográfica e que Nabokov se "desdobra" entre as duas personagens mais relevantes: Sebastian e o seu meio-irmão. O facto de nem sempre conseguirmos distinguir o que é real do que é imaginário, acaba por sustentar esta ideia.

 

 "Aprendi que a alma é apenas uma forma de ser, não um estado constante, e que qualquer alma pode ser nossa se a captarmos e seguirmos as suas ondulações. O além talvez seja a plena capacidade de viver conscientemente em qualquer alma que se escolha, em qualquer conjunto de almas, todas elas inconscientes do fardo permutável que carregam."

 

A história em si não tem nada de extraordinário. Já perto da morte, Sebastian delega ao seu meio-irmão a missão de queimar todos os seus segredos e cuidar dos seus últimos pertences, e é nessa altura que cresce a curiosidade em conhecer o passado de Sebastian. Ao longo da história o autor vai revelando algumas características da personalidade de Sebastian, mas apenas no final sentimos que o conhecemos realmente. Esta obra torna-se assim num exercício de memória e numa busca de um passado desconhecido.

 

Não esperava revelações surpreendentes nem um final "tchanah" mas acabou por acontecer, e é mesmo disto que os leitores mais gostam. Vou continuar a procurar outras obras de Nabokov, fiquei com muita vontade de ler mais!

 

" Existe apenas um único número real: o número um. E o amor, aparentemente, é o melhor expoente dessa singularidade."

 

Classificação no Goodreads: 4/5

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