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Claro como a água

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24
Mai16

OPINIÃO | Teoria Geral do Esquecimento

 

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Título: Teoria Geral do Esquecimento

Autor:  José Eduardo Agualusa

Ano de publicação: 2012

Editora: Dom Quixote

 

Se tivesse de escolher uma palavra para descrever o livro, ou antes uma palavra para descrever o que senti quando terminei de ler a Teoria Geral do Esquecimento, seria esperança. É estranho que um livro com este título transmita esperança mas como diz Agualusa:

 

"Os monstros nunca são totalmente monstros, há alguma coisa de humanidade sempre dentro dessas pessoas, mesmo dentro daquelas que constroem monstruosidades, como dentro dos heróis há sempre um lado escuro. As pessoas são isso mesmo."

 

Agualusa retrata Angola num passado recente marcado pela independência e pela guerra civil do início do século XXI. Nesta história, o autor conta-nos a vida de diversas personagens focando-se numa mulher em particular: Ludovica. Ludo, como é carinhosamente tratada, é uma portuguesa que vive em Angola com a irmã e o cunhado. Sem saber como, vê-se sozinha e isolada, precisamente na altura em que Angola consegue a independência. Ludo resolve erguer uma parede que a mantém fechada no apartamento onde mora durante 30 anos, sem, no entanto, a isolar totalmente. O mundo acaba por lhe entrar pela casa dentro sob a forma de estranhos (e aparentemente infundados) acontecimentos.

 

Ludo é uma personagem por quem é muito fácil apaixonarmo-nos, achei curioso que Agualusa tenha conseguido criar uma personagem tão cativante sem que a tenha caracterizado como tal. Sabemos pouco sobre Ludo, sabemos aquilo que Agualusa quis contar, mas parece que sabemos o suficiente.

 

"Deus pesa as almas numa balança. Num dos pratos fica a alma, no outro as lágrimas dos que a choraram. Se ninguém a chorou, a alma desce para o inferno. Se as lágrimas foram suficientes, e suficientemente sentidas, ascende para o céu. Ludo acreditava nisto. Ou gostaria de acreditar. Foi o que disse a Sabalu: vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros.”

 

Agualusa tem um ritmo próprio de contar a história, por diversas vezes senti que algo me tinha escapado mas, quando menos esperava, lá estava a explicação para o que tinha acontecido. Esta forma de narrar, com os 'porquês' e os 'comos' a aparecerem muito depois do acontecimento, tão particular e estranha, pode por vezes parecer confusa mas acaba por fazer sentido. É caso para dizer que primeiro estranha-se e depois entranha-se.

 

Achei que a história e as personagens poderiam ter sido mais aprofundadas, o facto de a obra ter sido construída com o objectivo de servir de guião de um filme (que acabou por nunca ser realizado) pode ser a explicação para a superficialidade que senti em alguns momentos. Também senti que no final a narrativa acelerou um bocadinho e os acontecimentos acabaram por se desenrolar mais depressa do que gostava.

 

Independentemente de tudo isto, fica a certeza de que nada acontece por acaso, a vida tem um motivo e um curso e Agualusa soube muito bem passar esta mensagem de esperança, como também soube tornar-me (finalmente) sua fã!

 

“Não se atormente mais. Os erros nos corrigem. Talvez seja melhor esquecer. Devíamos praticar o esquecimento.”

 

 

Classificação no Goodreads: 4/5

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