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Claro como a água

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06
Jul16

OPINIÃO | Crime e Castigo

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Título: Crime e Castigo

Autor: Fiódor Dostoievski

Ano da primeira publicação: 1866

Editora: Relógio d'Água

 

Infelizmente não temos tempo para ler tudo o que gostaríamos, por isso o melhor é começar pelos melhores, Crime e Castigo faz claramente parte da lista dos melhores livros de sempre! Um conselho para quem se vai "aventurar" nesta obra prima: as primeiras 100 páginas podem parecer difíceis mas a partir daí o livro torna-se viciante, não desistam.

 

Depois de ter lido O Jogador percebi que tinha obrigatoriamente de pegar em Crime e Castigo o quanto antes, ainda mais porque já tinha um exemplar na estante há um par de meses. Esta leitura revelou-se uma surpresa, não tanto pela escrita, essa já sabia que me iria deliciar, mas principalmente pela capacidade que Dostoievski tem de entrar na mente humana e de criar personagens fascinantes. A personagem principal desta história é Rodion Raskólnikov, um jovem ex-estudante, que teve de abandonar os estudos universitários por falta de recursos. Rodion vive sozinho num quarto minúsculo de uma pensão, mal tem dinheiro para comer e para sustentar a mãe a irmã. Em jeito de nota: também neste obra o autor tem muito em comum com o protagonista, após ter perdido tudo no jogo, também Dostoievski passou por momentos de desespero e de miséria.

 

Não é propriamente um spoiler porque já todos devem ter percebido pelo título que esta história gira em torno de um crime. Talvez não saibam no entanto quem cometeu o crime e nesse caso seria melhor não lerem este parágrafo. Nesta grandiosa obra o autor analisa profundamente e de forma exuberante a mente de Rodion antes, durante e após o assassinato da “velha penhorista”. O autor recorre a expressões particularmente arrepiantes e bastante eficazes como taquicardia, tremor de mãos, febre, delírio e doença.

 

Esta experiência originou um turbilhão de sentimentos em mim e uma enorme confusão na minha cabeça. O que se passou foi mais ou menos assim: 1) no início da leitura senti que alguma coisa me ligava à história sem no entanto encontrar uma razão lógica que justificasse tal reacção; 2) após ter sido cometido o crime notei que crescia em mim um fascínio por esta personagem assassina, e por esta altura já não conseguia largar o livro; 3) algumas páginas depois comecei a sentir-me desesperada devido ao ritmo da leitura, demasiado lento para o meu gosto; 4) entrei num período em que a relação entre as personagens se tornou mais sólida e também mais dramática, esta mudança agradou-me; 5) faltavam apenas algumas páginas para o final da obra, o autor resolveu explorar novos sentimentos, de que gostei bastante, mas por esta altura começava a ansiar pelo desfecho do caso. No final de toda esta desordem não me senti mais feliz nem particularmente satisfeita, sentia-me antes perturbada e percebi que precisava de reflectir sobre tudo o que se tinha passado. Numa frase, senti que tinha acabado de andar na montanha-russa!

 

Relativamente à escrita, digo-vos uma vez mais que não devem recear. Dostoievski é um dos grandes escritores mundiais mas isso não significa que a sua escrita seja um quebra- cabeças, a história é perceptível e fácil de assimilar, o vocabulário não é complexo mas é bastante rico e as descrições são abundantes e merecem ser lidas.

 

Podia encher este post de citações profundas e super filosóficas mas isso seriam quase spoilers. Partilho apenas poucas das imensas de que gostei:

 

“Aquela satisfação íntima que se observa sempre, até nas pessoas mais chegadas, diante da inesperada desgraça do próximo, e à qual nenhum homem sem excepção escapa, apesar do mais sincero sentimento de piedade e simpatia.”

 

“A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais. Mente, que vais acabar por atingir a verdade.”

 

“Quando a inteligência falha, o diabo aparece.”

 

Não esperem um livro que vos encha as medidas e que vos deixe mais felizes, dificilmente isso irá acontecer, é um livro pesado, sobre o certo e o errado e que explora o lado mais negro da mente humana. Uma leitura perturbadora e que (inexplicavelmente) me deixou com saudades de Rodion Raskólnikov.

 

Classificação no Goodreads: 5/5

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