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Claro como a água

Claro como a água

26
Jun16

CITAÇÃO | Franz Kafka e os livros

É bom quando a nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso torna-a mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos a ler não nos desperta como um soco no crânio, para quê perder tempo a lê-lo? Para que ele nos torne felizes? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrevê-los nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós.

17
Jun16

CITAÇÃO | Fernando Pessoa

Mais vale a sombra de uma árvore do que o conhecimento da verdade, porque a sombra da árvore é verdadeira enquanto dura, e o conhecimento da verdade é falso no próprio conhecimento. Mais vale, para um justo entendimento, o verdor das folhas que um grande pensamento, pois o verdor das folhas, podeis mostrá-lo aos outros, e nunca podereis mostrar aos outros um grande pensamento. Nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passamos a vida entre o silêncio de quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, e em torno disto, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino.

 

em O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Filosóficos de Fernando Pessoa

13
Jun16

CITAÇÃO | Afonso Cruz

A HORIZONTALIDADE é um dos maiores sintomas da morte, lugar onde tudo se mistura. A verticalidade mostra exactamente o oposto. É por isso que nos impressiona uma flor a nascer, a despontar, e ficamos desiludidos com as abóboras, os melões, as cobras e os lagartos, que se estendem pelo chão, na modorra, em vez de crescerem para o alto, como os espíritos mais ousados. Uma árvore deitada está morta, não está a dormir, e os animais, quando dormem, experimentam o sabor do acabamento. A horizontalidade é o triunfo da morte, e o universo, apesar de redondo, é horizontal. A Terra é mais ou menos esférica, mas o que se vê, quando se olha, é o horizonte. Talvez por isso, o sexo esteja sempre tão próximo da morte, por ser tão horizontal na sua maneira de estar. Santo Agostinho, ao juntar a morte ao sexo, ao pecado original, vislumbrava a morte a ser transmitida pelo ADN, a ser misturada na cama que é onde se dorme e onde se morre com grande frequência. Porque no nosso ADN há uma ordem que diz para morrermos. E isso é comunicado, preferentemente, na horizontal.

 

em A Boneca de Kokoschka de Afonso Cruz

09
Mai16

CITAÇÃO | Ondjaki

As nossas vozes espalhavam barulhos nessa varanda onde primeiro só havia cheiros. Os barulhos esquecem-se rápido. Ainda bem que os cheiros ficam bem presos na nossa memória das recordações. Eu acho que quando formos crescidos vamos gostar de reencontrar estas coisas do nosso antigamente.

Num qualquer futuro, onde eu encontrar cheiro de abacate, ela vai estar um bocadinho lá.

 

em Uma Escuridão Bonita, de Ondjaki

18
Abr16

CITAÇÃO | Javier Marías

Contar deforma, contar os factos deforma os factos, e deturpa-os, e quase os nega, tudo o que se conta para a ser irreal e aproximativo, não obstante seja verídico, a verdade não depende de que as coisas tivessem "sido" ou sucedido, mas de que permaneçam ocultas e desconhecidas ou não sejam contadas, logo que se relatam, ou se manifestam, ou mostram, mesmo que seja no que mais real parece, na televisão ou no jornal, naquilo a que se chama realidade, ou a vida, ou inclusive a vida real, passam a fazer parta da analogia e do símbolo, e já não são factos, mas transformam-se em reconhecimento. A verdade nunca resplandece, como diz a fórmula, porque a única verdade é a que não se conhece nem se transmite, a que não se traduz por palavras ou imagens, a encoberta e não averiguada, e talvez por isso se conte tanto ou se conte tudo, para que nunca tenha acontecido nada uma vez contado.

 

em Coração tão Branco de Javier Marías

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