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Claro como a água

Claro como a água

13
Jun16

CITAÇÃO | Afonso Cruz

A HORIZONTALIDADE é um dos maiores sintomas da morte, lugar onde tudo se mistura. A verticalidade mostra exactamente o oposto. É por isso que nos impressiona uma flor a nascer, a despontar, e ficamos desiludidos com as abóboras, os melões, as cobras e os lagartos, que se estendem pelo chão, na modorra, em vez de crescerem para o alto, como os espíritos mais ousados. Uma árvore deitada está morta, não está a dormir, e os animais, quando dormem, experimentam o sabor do acabamento. A horizontalidade é o triunfo da morte, e o universo, apesar de redondo, é horizontal. A Terra é mais ou menos esférica, mas o que se vê, quando se olha, é o horizonte. Talvez por isso, o sexo esteja sempre tão próximo da morte, por ser tão horizontal na sua maneira de estar. Santo Agostinho, ao juntar a morte ao sexo, ao pecado original, vislumbrava a morte a ser transmitida pelo ADN, a ser misturada na cama que é onde se dorme e onde se morre com grande frequência. Porque no nosso ADN há uma ordem que diz para morrermos. E isso é comunicado, preferentemente, na horizontal.

 

em A Boneca de Kokoschka de Afonso Cruz

18
Mai16

OPINIÃO | A Boneca de Kokoschka

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Título: A Boneca de Kokoschka

Autor: Afonso Cruz

Ano de publicação: 2010

Editora: Quetzal

 

Afonso Cruz é um dos meus autores de eleição, é sempre com grandes expectativas que entro no seu mundo mágico. A Boneca de Kokoschka foi quase perfeito, digo quase porque não posso/consigo elevá-lo ao patamar de Para onde vão os guarda-chuvas. 

 

Os títulos dos livros do Afonso são qualquer coisa de enigmática. Dos sete livros que li penso que apenas em um deles consegui perceber a relação do título com o conteúdo logo nas primeiras páginas, regra geral só após a primeira metade do livro, ou mesmo já no final, é que conseguimos perceber o que motiva o título. A Boneca de Kokoschka é um título igualmente enigmático já que a história não é de todo sobre bonecas, muito menos sobre o pintor Kokoschka, é sim uma história com várias personagens e onde a ficção se confunde com a realidade.

 

"Em pequena, Adele passava muito tempo sozinha a brincar com bonecas. Tentava dar-lhes vida, vestia-as e levava-as a passear, levava-as à ópera, dava-lhes banho e dormia com elas, provando assim que a ficção, e não o cão, é a melhor amizade do homem."

 

Não vou escrever novamente sobre o fascínio que tenho pelo "mundo" de Afonso Cruz, particularmente pela sua escrita, se quiserem saber mais podem consultar as opiniões que escrevi relativamente a Para onde vão os guarda-chuvas, Jesus Cristo bebia Cerveja e O Pintor debaixo do lava-loiças. Quero apenas referir que, para além de passagens maravilhosas (que dão vontade de guardar para não esquecer), o livro contém ilustrações do próprio autor que são uma delícia!

 

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A Boneca de Kokoschka é tudo o que Afonso Cruz nos habituou: uma prosa poética, com passagens geniais, personagens peculiares, histórias dentro de histórias. O autor apresenta-nos personagens encantadoras, conhecemos um escritor que cria vidas reais através da ficção, um rapaz cuja infância foi uma voz debaixo de uma cave, um homem que vende pássaros em plena Segunda Guerra Mundial e muitas outras igualmente fascinantes.

 

Se há obras que parecem um puzzle, esta é sem dúvida uma delas. As várias histórias e personagens parecem não se relacionar, foram vários os momentos em que me senti confusa com tantas peças soltas. Penso que esse é o principal entrave à fluidez da história. Por outro lado, a ansiedade em querer ver o puzzle completo levou-me a ler o livro num ápice. A conclusão a que chego é que a profundidade que o autor coloca na história e na escrita merecem que o leitor se dedique "de corpo e alma" a esta gigante metáfora que é A Boneca de Kokoschka.

 

 "E aquelas vinte e duas letras era tudo o que era preciso, garantia Isaac, debaixo do soalho. Deus faria o resto. Lá em cima, o que Ele faz é jogar scrabble. As pessoas dão-lhe umas letras, julgam que sabem o que querem, mas não sabem, e Deus com aquelas peças reorganiza tudo e faz novas palavras. Tudo se resume a um jogo de salão. E Deus nem é um grande jogador, como se pode ver pelas bombas que caem lá fora."

 

Afonso Cruz é não só um mestre da escrita, mas também a ponte entre a ficção e a realidade, costumo dizer que a sensação ao ler uma das suas obras é equiparável à sensação que o homem teria se pudesse voar. Temo que Afonso Cruz se torne óbvio e que deixe de me fascinar, enquanto isso não acontecer vou continuar a ansiar pelas suas obras e a recomendá-lo sempre que me perguntarem por um bom livro.

 

Classificação no Goodreads: 5/5

02
Mai16

OPINIÃO | Os Livros que devoraram o meu pai

Os Livros que Devoraram o Meu Pai

 

Título: Os Livros que devoraram o meu pai

Autor: Afonso Cruz

Ano da primeira publicação: 2008

Editora: Caminho

 

Após ter lido seis livros do Afonso Cruz, eis que chega a desilusão. Os Livros que devoraram o meu pai foi publicado em 2008, é o terceiro livro do autor e aquele de que menos gostei, mas que final é este meus senhores?!

Estão a ver quando um autor vos habitua a histórias mágicas, personagens incríveis e uma escrita para lá de genial? Sim? Óptimo! Agora imaginem que assim de repente esse autor diminui a magia a que vos habituou. Desilusão é tudo o que eu sinto.

 

Mas não se vão já embora porque não foi assim tão mau, classifiquei o livro com 4 estrelas em 5.

 

Este é um livro sobre livros, sobre a paixão pela literatura e sobre a forma como o leitor pode ser "transportado" para o mundo dos livros. O autor consegue de forma ternurenta descrever os sentimentos do leitor pelos livros, pelas histórias e pelas personagens literárias, ao mesmo tempo que aborda temos tão distintos como a saudade e a maldade entre os jovens.

 

É um livro que dirá muito a quem tal como eu se deixa absorver pelos livros, e talvez seja indicado para aqueles que dizem não gostar de ler. 

 

"Porque nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias."

 

O livro faz parte do Plano Nacional de Leitura (para o 7º ano), encontra-se na secção juvenil das livrarias/bibliotecas. A história parece ser indicada para um público mais jovem mas achei que a mensagem que o autor pretende passar poderá ser difícil de entender por um jovem de 12 anos.

 

Afonso Cruz é o mestre da escrita, não tenho dúvidas disso, e como é normal tem melhorado com a prática. Sendo este um dos primeiros livros que escreveu, é expectável e mesmo notória a diferença relativamente a publicações mais recentes. Para quem nunca leu Afonso Cruz deixo um conselho de amigo: devem começar por este livro ou então nunca devem lê-lo! Mas é óbvio que já em 2008 a escrita do autor era mágica, ora note-se:

 

"Para uns, a raiz é a parte invisível que permite a árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado."

 

Um livro muito pequenino que se lê num ápice mas que nos conduz por muitos outros mundos como os de A Ilha do Dr. Moreau de H. G. Wells, Crime e Castigo de Dostoievski e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.

Isto é Afonso Cruz quase no seu melhor! Só pelo benefício da dúvida, vou pensar em reler este livro um dia, não vá não ter tido a capacidade de ver mais além.

 

Classificação no Goodreads: 4/5

14
Abr16

OPINIÃO | Vamos Comprar um Poeta

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Título: Vamos Comprar um Poeta

Autor: Afonso Cruz

Ano de publicação: 2016

Editora: Caminho

 

Nunca me foi fácil escrever sobre os livros de Afonso Cruz e acabo sempre por me repetir, após ter escrito sobre quatro dos seus livros torna-se mesmo inevitável.

 

Vamos Comprar um Poeta é a mais recente obra do escritor português Afonso Cruz. Chegou às livrarias esta semana e como já disse aqui, não resisti a comprá-lo.

 

Esta é uma história sobre uma sociedade imaginária onde todas as pessoas têm números em vez de nomes, tudo nas suas vidas é medido quantitativamente e com exactidão, desde as três gramas de manteiga para barrar o pão até aos mililitros de saliva partilhados nos afectos.

 

“Dizem que é bom transacionarmos afetos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda, há quem acredite – é uma questão de fé –, que pode trazer dividendos. O pai diz que são fantasmas, são coisas que não existem, matéria imaterial, mas há estudos que confirma a hipótese de haver benefício em depositar uns mililitros de saliva na maçã do rosto de outra pessoa, por mais estranho e grotesco que isso nos possa parecer.”

 

Nesta sociedade imaginária a cultura é vista como um disparate e uma inutilidade e os artistas são os "animais de estimação" das famílias. A narradora e protagonista desta história escolhe ter um Poeta por este ser mais barato e sujar menos do que um artista (pintor ou escultor). Ao longo de sensivelmente 80 páginas o autor conta-nos como se desenvolve a relação entre a nossa protagonista e o seu Poeta. 

 

É um livro muito pequenino em tamanho e que se lê demasiado rápido, mas é um livro de uma enorme importância. Mais do que uma história, Vamos Comprar um Poeta é uma crítica à forma como a cultura é vista pela sociedade. Através de passagens absolutamente magníficas, o autor leva o leitor a reflectir sobre a importância da poesia, da criatividade e da cultura nas nossas vidas. O posfácio da obra complementa a crítica feita ao longo da história, e dá-nos uma visão mais concreta sobre os argumentos do autor acerca da importância da cultura na sociedade.

 

Sou uma apaixonada pela escrita poética de Afonso Cruz, esta obra em particular encheu-me as medidas e entrou na minha lista de favoritos. Tenho muita vontade de partilhar convosco algumas das citações do livro mas não quero arruinar a experiência fantástica que este livro proporciona. Recomendo mesmo que leiam!

 

Classificação no Goodreads: 5/5

17
Mar16

CITAÇÃO | Afonso Cruz

Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim, o estômago da cabeça que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois estômagos do homem alimentam-se através da boca e do nariz, ao passo que o terceiro estômago se alimenta principalmente através dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto de um modo mais subtil.

 

em O Pintor debaixo do lava-loiças de Afonso Cruz

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