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Claro como a água

Claro como a água

05
Dez16

Calendário do Advento | 5 de Dezembro de 2016

A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.

 

em História de um muro branco e de uma neve preta, um conto de Natal de José Saramago

04
Dez16

Calendário do Advento | 4 de Dezembro de 2016

Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.

 

em A Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner

02
Dez16

Calendário do Advento | 2 de Dezembro de 2016

Sempre considerei, creio, o Natal, quando a época se aproxima, uma coisa boa... É uma altura amável, própria para perdoar, para fazer caridade; é a única altura, durante o longo calendário do ano, em que homens e as mulheres parecem abrir livremente, e de comum acordo, os seus corações fechados, para pensarem naqueles que se encontram mais desprotegidos, como se fossem todos, realmente, caminheiros na mesma viagem para o túmulo, e não outra raça empenhada em rota diferente.

 

em Um Conto de Natal de Charles Dickens

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