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Claro como a água

Claro como a água

16
Nov17

OPINIÃO | A Estrada Subterrânea

A Estrada Subterrânea.jpg 

Tí­tulo: A Estrada Subterrânea

Autor:  Colson Whitehead

Ano da primeira publicação: 2017

Editora: Alfaguara Portugal

 

A Estrada Subterrânea é o romance de Colson Whitehead que arrecadou o Prémio Pulitzer para ficção (2017) tendo ainda estado na corrida para o Man Booker Prize (2017). As críticas são promissoras: "um romance poderoso", um "livro de aventuras que é também um livro de viagens", um "romance histórico com toques de fantasia e distopia" e uma "reflexão sobre a humanidade com toques de fábula". Por tudo isto, o romance será adaptado à televisão, numa série dirigida por Barry Jenkins, realizador de "Moonlight".

 

Tendo por base o cenário que descrevi no parágrafo acima, comprei o meu exemplar de A Estrada Subterrânea, tendo partido para a sua leitura com grandes expectativas!

 

Em jeito de enquadramento, a personagem principal do romance é Cora, uma escrava numa plantação de algodão no estado de Georgia. O romance relata a sua vivência numa altura em que Cora aceita o desafio de Caesar, um outro escravo recém-chegado à plantação, e os dois fogem pela "estrada subterrânea".

 

Ora bem, um tema sensível, alguma ação envolvida, uma personagem principal promissora. Mas a coisa não se deu como esperava, o tal romance poderoso revelou-se distante e muito impessoal, não senti qualquer empatia com nenhuma das personagens, nem mesmo com Cora, faltou-lhe personalidade. A forma como a narrativa está construida levou a que um tema tão perturbante e violento como a escravatura fosse relatado de forma demasiado ligeira.

 

Relativamente à escrita há que realçar que somos contemplados com algumas passagens interessantes. Se pudesse dividir o livro em partes diria que a primeira se lê muito bem, já a segunda começa a ficar um bocadinho aborrecida (mas talvez esta sensação derive da falta de empatia com as personagens?).

 

No fim o que ficou foi muito pouco. Dois dias volvidos e pouco me recordo acerca da história e das personagens. Ficou a indiferença.

 

Classificação no Goodreads: 2/5

14
Nov17

NOVIDADES | Afonso Cruz

 

Título: Jalan Jalan
Autor: Afonso Cruz
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2017
Número de páginas: 656
 

 

Já está em pré-venda a mais recente obra do Afonso Cruz, um senhor que dispensa apresentações e cujas obras são de leitura obrigatória. O preço é bastante exorbitante, quando vi que estão a pedir €29,90 por ele iam-me caindo os olhos. Se aproveitarem os 20% de desconto da Fnac (apenas hoje) podem comprá-lo por €23,92, um pouco menos ainda que demasiado.

Este será o meu pecado do ano, mas não ter gasto dinheiro em livros nos últimos três meses aligeira um pouco a coisa.

 

Apesar da beleza da paisagem, dos campos de arroz, do verde omnipresente, dos templos hindus, dos macacos zangados, uma das melhores coisas que trouxe de Bali foi uma oferta do João, que me embrulhou e ofereceu uma palavra, talvez duas: Jalan significa rua em indonésio, disse-me. Também significa andar. Jalan jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear. Passear é andar duas vezes. (…) Passear é o que fazemos para não chegar a um destino, não se mede pela distância nem pela técnica de colocar um pé à frente do outro, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu ou como o voo de um pássaro nos tocou. É um pouco como a arte, tem o valor imenso de tudo aquilo que não tem valor nenhum. Pode não ter razão, destino, objetivo, utilidade, e é exatamente aí que reside a riqueza do passeio. Não existem profissionais do passeio. Chesterton, que era um grande apologista do amador, dizia que as melhores coisas da vida, bem como as mais importantes, não são profissionalizadas. O amor, quando é profissionalizado, torna-se prostituição.

26
Set17

OPINIÃO | A Elegância do Ouriço

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Tí­tulo: A Elegância do Ouriço

Autor: Muriel Barbery

Ano da primeira publicação: 2006

Editora: Editorial Presença

 

Andava eu em busca de leituras mais soft quando me deparei com a premissa d' A Elegância do Ouriço, nada mais nada menos do que um prédio num bairro em Paris que emprega uma porteira autodidata e onde habita uma jovem sobre-dotada. 

O primeiro terço do livro não foi nada fácil de assimilar, principalmente pela alternância entre narradores e pelos capítulos de divagação, que apareciam sem propósito aparente. Ultrapassada esta dificuldadezinha, A Elegância do Ouriço revelou ser pouco ou nada soft, mas antes uma história encantadora.

Como descrever esse momento de grande alegria? (...) É um fora-do-tempo dentro do tempo... Quando senti pela primeira vez esse abandono delicioso que só é possível a dois? A quietude que sentimos quando estamos sozinhos, essa certeza sobre nós mesmos na serenidade da solidão, não são nada em comparação com o deixar-se levar, deixar-se ir e deixar falar que se vive com o outro, em companhia cúmplice... Quando senti pela primeira vez esse relaxamento feliz em presença de um homem? Hoje, é esta a primeira vez.

 

Ao longo das páginas do livro somos levados a conhecer a vivência daquele prédio em Paris e o dia-a-dia dos seus moradores ricos e snobs. Inicialmente é nos apresentada Renée, uma mulher de 54 anos, a porteira do prédio. Renée é uma pessoa humilde mas bastante inteligente e auto-didata, carrega consigo, debaixo do braço e em segredo, algumas das maiores obras literárias. Renée revelou-se uma personagem tão interessante de tal forma que me entristece não poder trazê-la do mundo imaginário para o mundo real.

Logo de seguida, conhecemos Paloma, uma jovem de 12 anos, com uma inteligência muito acima da média e que, por conhecer o destino vago que a espera, decide suicidar-se no dia em que completar 13 anos. Renée e Paloma têm em comum uma característica comportamental: ambas tentam esconder a sua inteligência e olhar crítico sobre o mundo que as rodeia.

 

Como se Renée e Paloma não fossem personagens suficientemente interessantes para deixarem o leitor preso à história, algures a meio do livro o prédio ganha um novo morador, um senhor japonês, também ele riquíssimo, de nome Ozu. É Ozu quem vai mudar o destino de Renée e Paloma.

Já não sei muito bem o que pensar. Por um instante, acreditei que tinha encontrado a minha vocação; acreditei entender que, para me cuidar, precisava de cuidar dos outros, quer dizer, dos outros "cuidáveis", os que podem ser salvos, em vez de ficar às voltas porque não posso salvar os outros. Então, será que deveria ser médica? Ou escritora? É um pouco parecido, não é?

 

A leitura nem sempre é fluída, a alternância de narradores e contextos dificulta a assimilação dos acontecimentos, Ainda assim, as personagens peculiares e as passagens encantadores fazem valer todos os minutos que passei a ler este livro. Uma leitura não tão soft assim, sobre a beleza e elegância interior, com um final arrebatador. Recomendo!

 

Classificação no Goodreads: 4/5

15
Set17

OPINIÃO | A Educação de Eleanor

Eleanor.jpg 

Tí­tulo: A Educação de Eleanor

Autor: Gail Honeyman

Ano da primeira publicação: 2017

Editora: Porto Editora

 

Quando comprei o meu exemplar de A Educação de Eleanor procurava algo mais leve e na realidade este livro pode ser bastante leve se o leitor assim o entender, mas pode antes ser algo mais perto de literatura se formos um pouco mais fundo.

 

Eleanor Oliphant tem uma vida completamente normal, ou pelo menos assim pensa. Eleanor tem 30 anos, vive sozinha e não tem amigos, divide o seu tempo entre um emprego das 9 às 5 num escritório e pizza fria e vodca ao fim de semana. Acredita estar bem assim.

Tenho pena das pessoas bonitas. A beleza, a partir do momento em que a possuímos, está já a dissipar-se, efémera. Deve ser difícil ter constantemente de provar que somos mais do que isso, querer que as pessoas vejam para além da superfície, ser amado por quem somos e não por um corpo deslumbrante, olhos brilhantes ou cabelo denso e luzidio. 

A autora Gail Honeyman construiu uma personagem muito peculiar, a começar pelo seu nome: Eleanor Oliphant. Diria que é quase impossível lê-lo sem que salta à vista a palavra inglesa Elephant (Eleanor Oliphant). É isso mesmo que Eleanor é, um elefante no meio da sala, assunto de todas as conversas, ainda que preferisse passar despercebida e que não a chateassem.

 

Embora a autora nos revele bastante sobre a personalidade de Eleanor, principalmente na primeira metade do livro, até o leitor mais distraído percebe que Eleanor está envolta em mistério. São dadas indicações que nos levam a crer que Eleanor não terá tido uma infância fácil, tem até marcas físicas na cara que indicam isso mesmo, mas ninguém ousa questioná-la sobre a origem dessas marcas.

Eis o que senti: o peso quente das mãos dele nas minhas; a sinceridade do seu sorriso; o calor suave de algo a abrir-se, como as flores se abrem de manhã ao ver o Sol. Sabia o que estava a acontecer. Era o pedacinho não cicatrizado do meu coração. Era grande o suficiente para deixar entrar um bocadinho de afeto. Ainda havia um espacinho minúsculo. 

A Educação de Eleanor está dividido em duas partes: "Dias Bons" e "Dias Maus", a antítese que caracteriza toda a obra, não fosse ela um misto de tristeza e comédia, uma leitura leve ou algo mais perto de "literatura a sério".

 

Classificação no Goodreads: 4/5

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